A hipnose cura?

Hipnose-Psicologia-Previtali-300x238Esta quando em conjunto com outras abordagens psicoterapêuticas, pode tratar entre outros a ansiedade, depressão, dor, comportamentos de dependência e problemas de auto-estima. O êxito desta prática, que não deve ser considerada um remédio para todos os males, resulta, em grande parte, da relação com o terapeuta.

A hipnose, e tudo o que gira à volta da mesma, é alvo de grande controvérsia, cepticismo, descrença por parte de uns, ou prática cegamente aceite, sem qualquer preconceito, por outros. Um dia, um clínico que milita na facção contra, e que sabia do meu interesse pela abordagem do “eu” através da hipnose, disse-me: “Vê lá onde te metes, são coisas que não estão provadas e que te podem trazer problemas.” Mas também há as opiniões contrárias, como por exemplo, esta, transmitida de indicador esticado:

“A hipnose é um método infalível e se, por acaso, a coisa se complicar, junta-se-lhe um exorcismo e fica tudo expurgado.” Na minha opinião, nem uns nem outros Ihe conhecem as virtudes e limites, o que dá azo a discursos de um positivismo ridículo repleto de verdades absolutas. A hipnose está muito para além destas questões levantadas por quem dela nada percebe. Quando praticada com seriedade e competência é um forte meio de exploração do “eu” e um instrumento que, associado as psicoterapias, se torna capaz de ajudar quem, num dado momento da sua vida, sofre de perturbações do comportamento ou certos distúrbios físicos.

Motor de auto-análise

O que é, de onde vem, como actua e a quem se aplica a hipnose? Numa primeira perspectiva, pode ser encarada como um estado alterado de consciência que se concretiza no alcance de uma dinâmica mental, caracterizada por modificações do estado de vigília, da dinâmica mnésica e do pensamento. Muitos pensam que é uma espécie de sono no qual quem a ela se submete pode ser manipulado de forma indiscriminada, e pouco ética, pelos terapeutas. Nada disso. Salvo raras excepções, as pessoas estão bem acordadas, permanecem apenas num estado de grande tranquilidade, induzido através de técnicas de relaxamento. O facto de estarem de olhos fechados não quer dizer que tenham adormecido e perdido o contacto com o meio envolvente (a não ser que o hipnotizado esteja com sono). Numa perspectiva de conhecimento, a hipnose pode ser encarada como um processo de atenção para o interior de si próprio.

O objectivo deste processo é modificar o que no seio do seu “eu” possa estar a interferir negativamente com a maneira de nos vermos e o que nos rodeia. Por último, uma visão puramente clínica da hipnose leva-nos a dizer que é um processo interactivo, induzido pelo terapeuta, cujo objectivo é avivar memórias, por norma de natureza traumática, para que, num contexto mais largado da psicoterapia, se encontrem as soluções adequadas para devolver estabilidade à pessoa. Por esta razão, estou convicto de que a hipnose é, muitas vezes, o motor de uma auto-análise genuína.

Usos e riscos

As aplicações da hipnose são vastas, mas não se pode cair no exagero de a apontar como elixir para todos os males. Por outro lado, é tanto mais eficaz quanto mais associada a outros métodos de terapia do “eu”, independentemente da orientação seguida. Assim, é comum utilizar-se a via hipnótica para estados tão diversos como a ansiedade, depressão, dor, comportamentos aditivos (droga, alcoolismo, tabagismo), disfunções da esfera sexual, distúrbios do comportamento alimentar ou perturbações do sono.

Quanto aos riscos que envolve, não tenho dúvidas de que o único risco dependerá da incompetência do psicoterapeuta (esperemos que improvável), já que a hipnose por si é inócua. No entanto, para que tudo corra em conformidade, é fundamental que haja uma abordagem prévia dos procedimentos junto do paciente, explicando o que se vai passar. É imprescindível estabelecer o clima de confiança já referido para que os efeitos benéficos se façam sentir tão rápido quanto possível. Também é determinante que quem recorre a hipnose saiba que não é uma espécie de sono, que não perde o auto controlo e que tudo o que diz durante as sessões deve ser lembrado com clareza (sendo rara a amnésia pós-hipnótica).

Todas as abordagens psicoterapêuticas, isoladas ou combinadas, têm limites e a hipnose não é exceção. Podemos começar por dizer que cada caso é diferente e que, muitas vezes, são as características dos pacientes que determinam a pertinência ou não de recorrer à hipnose. Por outro lado, ninguém, em condições normais, entra em estado hipnótico contra a sua vontade. Por fim, no que toca às causas dos quadros clínicos, penso que a generalidade dos pacientes psicóticos (que, por exemplo, sofrem de esquizofrenia) não terá indicação para uma abordagem deste tipo, o mesmo se passando como os que apresentam doenças do cérebro (como as demências). Acredito que os avanços das investigações nas áreas do comportamento e das neurociências fardo com que, num futuro próximo, se faca mais luz neste mistério da mente humana.

História da hipnose

Não se sabe ao certo quando surgiu. Torna-se, por essa razão, difícil traçar um historial rigoroso, Tudo leva a crer que as práticas de tipo hipnótico tenham aparecido há alguns milhares de anos, quase em simultâneo, em civilizações tão afastadas como os Aztecas e os Incas (shamans), os Celtas (druidas) ou os povos do Oriente (la¬mas, sacerdotes shintoistas). Mas é só em meados do sec, XIX é que Franz Anton Mesmer (1734-1815) cria um estado particular de vibração a que chama magnetismo animal. Quem o captasse e dominasse conseguiria, tal como Mesmer, agir sobre as mais diversas doenças e obter efeitos curativos.

Há bastantes casos documentados de situações em que o alívio ou mesmo a erradicação de estados dolorosos ou de tensão nervosa acontecem graças a “manobras” semelhantes às preconizadas por Mesmer. Sugestão, placebo? Talvez. Mas é inegável que as pessoas melhoraram.

O termo “hipnose” é criado apenas em 1843, por James Braid, que utiliza a técnica para tratar uma multiplicidade de perturbações físicas e psíquicas. Nesse mesmo período é relevante a influência do cientista luso-goês José Custódio de Faria, que define o estado hipnótico como um sonho lúcido, e defende que cerca de 16 a 20% dos pessoas seriam sensíveis a tal variação da consciência. Mais tarde o neurologista francês Jean Martin Charcot começa a utilizar a hipnose para curar a histeria. A idade moderna da hipnose começa nos anos 30 do século passado.

Clark Hull, psicólogo e profes¬sor da Universidade de Yale, sugere a importância da hip¬nose na indução anestésica – facto ainda hoje envolto em grande polémica. As primeiras escalas de avaliação dos estados hipnóticos surgem depois da Segunda Grande Guerra. As escolas americana de Hilgard(1) e Erickson(2), e a francesa de Baruk(3) e Chertok(4) predominam, e ainda hoje prosseguem os estudos e aplicações clínicas nos mais diversos quadros.

Notas: I) Ernest Hilgard, psicólogo e hipnoterapeuta da Universidade de Stanford; 2) Milton Erickson, psicólogo e hipnoterapeuta, fundador do Instituto Milton Erickson; 3) Henri Baruk, neuropsiquiatra francês, Hospital de Charenton; 4) Leon Chertok, psiquiatra e hipnoterapeuta, fundador do Grupo de Estudos Para a Aplicação Médica da Hipnose.»

Por Manuel C.R. Domingos
Director da Unidade de Neuropsicologia
de Intervenção/HMB e docente na
Universidade Lusíada de Lisboa

Artigo publicado na revista Psicologia Actual
Nº 1 Março 2006

Clinica de Psicologia em Curitiba