A Modularidade da Mente

FodorFodor realiza, em uma obra relativamente pequena (144 pp), um grande passo na conquista científica da mente, ao propor uma explicação coerente e plausível para várias de suas funcionalidades. O autor introduz a noção de processos psicológicos verticais e modulares, como base para comportamentos biológicos coerentes.

A obra inicia discorrendo sobre quatro aspectos da estrutura mental, a partir da compreensão do autor de que a organização do comportamento é um fator derivado da estrutura mental e não vice-versa. Nesse tópico, explica as chamadas faculdades mentais horizontais (i.e. memória, julgamento), que vêm sendo relativamente bem pesquisadas no campo da psicologia. Invariáveis, as faculdades horizontais se aplicam às variadas situações (portanto não são domínio-específicas) e são “sistemas cognitivos distintos funcionalmente, cujas operações cruzam domínios de conteúdo” (p. 13). Fodor assume os processos mentais como computacionais, além de cognitivos, ou que todo processo cognitivo é um processo computacional, pois, para ele, uma função típica dos mecanismos cognitivos é realizar a transformação de representações mentais.

Continuando a obra, Fodor indica (e dá o devido crédito) o trabalho de Franz Joseph Gall como fonte inspiradora de seu conceito de faculdades verticais. Gall foi o fundador da frenologia e seu trabalho recebeu bastante descrédito por conta disso, quando a própria frenologia foi desacreditada. Para Gall, uma faculdade vertical é domínio-específica, geneticamente determinada, associada à estruturas neurais distintas e (já na visão de Fodor) computacionalmente autônoma.

O fato de ser domínio-específica, ou seja, suas operações não cruzam domínios de conteúdo, faz com que um sistema cognitivo vertical aplique-se somente a determinado tipo de situação.Ser geneticamente determinado significa que o sistema independe de um processo de aprendizado. Não são montados, no sentido de que não são resultado do acúmulo de subprocessos mais elementares. São hardwired, ou  associam-se diretamente a sistemas neurais específicos, localizados e estruturalmente elaborados. E são computacionalmente autônomos. Um sistema cognitivo com essas características é, para Fodor, um módulo, que, por sua vez, não deixa de ser uma espécie de faculdade vertical.

Uma visão de mente que contemple a questão dos módulos, na perspectiva apresentada por Fodor, assemelha-se a um canivete suíço, que pode apresentar diversas lâminas para diferentes tarefas, cada uma das lâminas sendo resultado do processo evolutivo específico da espécie. Fodor prossegue destacando que os sistemas cognitivos modulares compartilham um certo papel funcional na vida mental dos organismos e propõe uma taxonomia funcional para os mesmos: sistemas subsidiários e sistemas centrais.

Os principais candidatos a sistemas subsidiários são os sistemas perceptuais, ou de “entrada” de dados. Fodor passa então a dedicar boa parte do livro à demonstração de como os sistemas de entrada preenchem adequadamente os requisitos para serem considerados modulares.

Já caminhando para a conclusão da obra, o autor fala dos sistemas centrais, que seriam as faculdades horizontais. Para Fodor, os sistemas centrais não são modulares (e, portanto, desencapsulados informacionalmente) e representam o local de interface das representações oriundas dos diversos sistemas de entrada. O autor realça a importância da existência desses sistemas desencapsulados: “a domínio-especificidade tem a ver com o leque de questões para as quais um dispositivo fornece respostas (o leque de inputs para os quais ele computa análises); enquanto que o encapsulamento tem a ver com o leque de informações que o dispositivo consulta ao decidir quais respostas fornecer”.

Segundo Fodor, os sistemas centrais “olham” para os dados entregues pelos sistemas subsidiários, então “olham” para o que existe na memória, e usam essa informação para restringir a computação às melhores hipóteses sobre como a realidade é de fato. Na verdade, as explicações que o autor dá para os sistemas centrais permanecem inconclusivas e lembram o teatro cartesiano. Em sua defesa, pode-se dizer que o autor assume explicitamente essa fraqueza: “quanto mais global um processo cognitivo é, menos se consegue entendê-lo. Processos muito globais, como o raciocínio analógico, não são compreensíveis de nenhuma maneira” (p. 107).

Ciente dessas limitações, o autor prevê progressos na compreensão científica dos sistemas subsidiários, inclusive com a possibilidade de identificação de correlatos neurais a essas funções (token-identity). Mas assume que quase nada se sabe sobre o que acontece nos sistemas centrais. Ou seja, nas palavras do próprio autor, “o fantasma foi lançado mais para o fundo da máquina, mas ainda não foi exorcizado” (p. 127).

Sathler Guimarães

PSICOLOGIA PREVITALI EM CURITIBA