A nova medicina das emoções

É possível curar depressão, ansiedade e estresse sem remédios e sem ir ao divã do analista. É o que afirma o neuropsiquiatra francês David Servan-Schreiber, que reuniu o resultado de cinco anos de pesquisas científicas em um livro que já vendeu quase 500 mil exemplares na França e está chegando ao Brasil. Ele ensina sete maneiras de estimular o cérebro para ter sempre o corpo e as emoções em equilíbrio e ainda avalia, por meio de um teste, como anda seu nível de desgaste emocional O livro Curar o Estresse, a Depressão e a Ansiedade sem Medicamento nem Psicanálise (ed. Sá) chega ao Brasil este mês depois de tornar-se best-seller na França, com mais de 480 mil exemplares vendidos e tradução prevista em mais de 20 países. Tanto sucesso se deve à comprovação científica de algo que sabemos há mais de 2 mil anos: exercícios e estímulos físicos mexem com o cérebro a ponto de equilibrar as emoções e trazer bem-estar geral. O autor é o doutor David Servan-Schreiber, 41 anos, que tem uma trajetória brilhante. Durante duas décadas, estudou e trabalhou no Canadá e nos Estados Unidos, onde foi um dos fundadores, e depois diretor, do Centro de Medicina Complementar da Universidade de Pittsburgh. É doutor em ciências neurocognitivas pela Universidade de Carnegie sob a orientação de Herbert Simon, pai da inteligência artificial e Nobel de Economia, e James McClelland, pioneiro da teoria das redes de neurônios. Schreiber teve ainda sua tese publicada na prestigiada revista Science e foi eleito o melhor psiquiatra clínico da Pensilvânia em 2002. Ele se baseia nos princípios da “medicina integral” (mind-body medicine), também chamada de nova medicina emocional, que considera a capacidade de autocura do corpo humano. Segundo a teoria (desenvolvida pelo neurofísico português Antonio Damasio), o cérebro é divido em duas partes: a cognitiva, relacionada à linguagem, e a emocional, responsável pelo controle da fisiologia do corpo – ritmo cardíaco, tensão arterial, apetite, sono, libido, sistema imunológico.

Sete etapas

Com base em experiências realizadas por sua equipe, durante cinco anos, e sustentadas pelas mais recentes descobertas sobre o funcionamento do cérebro emocional, o doutor Schreiber propõe sete métodos naturais para se manter saudável: coerência cardíaca, integração neuroemocional pelos movimentos oculares (conhecido por EMDR – reprocessamento e dessensiblização pelo movimento dos olhos), energia da luz, acupuntura, ácidos graxos ômega-3, exercícios físicos e comunicação emocional (veja nas próximas páginas).

Corpo e emoção

“Os sete passos do método possibilitam usar o corpo para regular o cérebro emocional. Há estudos, por exemplo, que comparam pacientes deprimidos tratados com antidepressivos modernos (como Zoloft) e outros que adotaram a prática de exercícios físicos. Os resultados obtidos foram os mesmos após quatro meses de tratamento. Mas com uma diferença: um ano após o tratamento, 38% dos pacientes curados pelo medicamento tiveram uma recaída, contra somente 8% dos tratados com exercícios físicos”, conta o médico Schreiber. “Isso acontece porque existe no interior do cérebro emocional mecanismos de reequilíbrio, de autocura que, quando estimulados, podem diminuir os efeitos de traumas, depressão, estresse.” Em entrevista exclusiva a Bons Fluidos, na capital francesa, ele fala de solidão, remédios, auto-estima e propõe um teste para você avaliar seu nível de estresse.

Sete passos para o bem-estar Veja os métodos naturais propostos pelo neuropsiquiatra francês David Servan-Schreiber – e comprovados por importante centros científicos — para combater ansiedade, depressão, estresse, traumas e efeitos danosos de álcool e drogas. Alguns deles dependem de ajuda médica, porém outros podem ser postos em prática com algumas mudanças de alimentação e estilo de vida

1. Coerência cardíaca

Existe a variação normal e saudável dos batimentos do coração, mas, nas situações de estresse, ansiedade, depressão e cólera, o ritmo torna-se caótico. Por meio de exercícios respiratórios específicos, pode-se manter a coerência do ritmo cardíaco e evitar o caos, associado a estresse e estados depressivos. A coerência cardíaca influi diretamente na tensão arterial e na respiração e também beneficia o sistema imunológico e o equilíbrio hormonal. Na Inglaterra, executivos de grandes empresas, como Shell, British Petroleum, Hewlett Packard e Unilever, foram treinados para a coerência cardíaca, visando a maior produtividade e bem-estar no trabalho. Uma forma eficaz de conseguir isso é fazer duas respirações lentas e profundas. Em seguida, preste atenção na expiração até o final e deixe, após pausa de alguns segundos, que a inspiração aconteça naturalmente. Depois, imagine que a respiração lenta e profunda é realizada pelo coração. Por fim, a concentração deve ser dirigida à sensação de calor ou de expansão no peito. Ao mesmo tempo, lembre de algo bom. Em estudo publicado no American Journal of Cardiology, pesquisadores do Hearthmath Institute, da Califórnia, mostram que a simples lembrança de uma emoção positiva induz a pulsação coerente do coração.

2.Integração neuroemocional pelos movimentos oculares

Essa é uma espécie de hipnose estimulada pelo movimento rítmico dos olhos, similar ao que é realizado espontaneamente durante os sonhos. Esse tipo de terapia permite ao cérebro digerir os resíduos de traumas do passado. Segundo essa teoria, conhecida como EMDR (as iniciais de Eye Movement Desensitization And Reprocessing), a informação referente ao trauma é gravada e estocada em uma rede de neurônios independente. O movimento ocular estimula a atividade do sistema nervoso parassimpático, eliminando os traços do trauma e restabelecendo o equilíbrio. O EMDR é oficialmente reconhecido pela American Psychological Association, pela Sociedade Internacional para o Estudo do Estresse Traumático e pelo Ministério da Saúde da Grã-Bretanha e começa a ser ensinado em universidades da França, Alemanha e Holanda. No Brasil, há neurologistas que aplicam o método há alguns anos.

3. Energia da luz

O cérebro emocional é sensível aos diferentes ritmos biológicos, particularmente ao da luz. Ao amanhecer, é liberada a secreção matinal de cortisol (hormônio produzido pelas glândulas supra-renais, reguladoras do equilíbrio fisiológico) e a temperatura do corpo inicia sua ascensão diária. À medida que a intensidade da luz aumenta, a atividade do cérebro que caracteriza o sono profundo deflagra sua transição para o sono leve e o despertar completo. Por isso, acordar cedo e tomar o sol da manhã são medidas eficazes no tratamento da depressão.

4. Acupuntura

Essa milenar prática da medicina chinesa proporciona alívio com a aplicação de agulhas em determinados locais do corpo para bloquear regiões do cérebro emocional responsáveis pela experiência da dor e da ansiedade. Estudos realizados pela Universidade de Yale (EUA) testaram positivamente a eficácia da acupuntura para controlar a ansiedade de pacientes antes de cirurgias, em substituição aos medicamentos. Em Harvard (EUA), uma experiência realizada em conjunto com a equipe do Massachusetts General Hospital mostrou como o cérebro emocional pode ser diretamente controlado pela acupuntura.

5. Exercícios físicos

Eles influem no cérebro emocional por meio das endorfinas, moléculas secretadas pelo cérebro que deflagram mecanismos de bem-estar e prazer. Pessoas que praticam exercícios físicos regularmente – no mínimo 20 minutos, três vezes por semana — têm o ritmo cardíaco mais regular e suportam melhor que os sedentários as situações de estresse.

6. Ácidos graxos ômega-3

Cerca de 60% do cérebro é formado por ácidos graxos, base da constituição das membranas das células nervosas, por meio das quais ocorrem os estímulos cerebrais em todas as regiões do corpo. Uma dieta rica em ácidos graxos ômega-3 (presentes em peixes – como salmão, anchova, atum, truta –, legumes verdes e nozes) aumenta a produção dos neurotransmissores no cérebro emocional, responsável pelo processamento das emoções e do estresse. Experiências relatadas em publicações científicas concluíram que o ômega-3 influi sobre diferentes sintomas de depressão, como tristeza, falta de energia, ansiedade, insônia, desânimo.

7. Troca afetiva

O contato afetivo é uma necessidade biológica, como o alimento e o oxigênio. Experiências com ratos revelaram que a fisiologia dos mamíferos se desorganiza quando as relações afetivas se degradam. Nos humanos, estudos afirmam que a qualidade da relação entre pais e filhos determina o bom funcionamento do sistema parassimpático da criança, ou seja, o fator que favorece a coerência do ritmo cardíaco e permite resistir ao estresse e à depressão. O afeto por um cachorro ou um gato também tem efeitos importantes contra o estresse.

Texto: Fernando Eichenberg