Hipnose – O poder da Sugestão

 

Transformada em show, a hipnose ganhou má fama e perdeu credibilidade. Mas a técnica tem indicações precisas, e quem usa, garante: funciona no tratamento de problemas de fundo psicológico.

Por Cássio Leite Vieira

Parar de fumar, regredir a vidas passadas ou emagrecer sem esforço —parece que tudo é possível por meio de hipnose. Foi essa imagem mágica que desmoralizou a técnica, hoje facilmente confundida com ilusionismo ou associada a truques de levitação. O que pouca gente sabe é que a hipnose tem base científica e é regulamentada pelos conselhos federais de medicina, odontologia e psicologia, podendo ser praticada no Brasil por médicos, dentistas e psicólogos treinados.

Trata-se de um estado de consciência alterado, como o da vigília, que precede o sono. Nessa situação, o cérebro deixa temporariamente de checar as informações sensoriais que chegam a ele —como se fosse um empregado que estivesse de folga, sem ter saído de casa, isto é, à disposição. Por não estar sendo requisitado para outras tarefas, o cérebro fica livre para aceitar mais facilmente as sugestões propostas pelo hipnotizador. Mesmo em transe hipnótico, a pessoa não vai fazer nada que não queira —isso só acontece no palco, onde encenações fantasiosas muitas vezes são chamadas de hipnose.

PRÓS E CONTRAS

A técnica é levada a sério nos consultórios especializados, com amplo uso terapêutico. Quem utiliza afirma que o método tem boa performance no tratamento de fobias em geral, depressão, ansiedade, impotência sexual, ejaculação precoce, diurese noturna, gagueira, tiques nervosos, asma, alergias e doenças respiratórias de fundo emocional e quadros de náuseas e vômitos ligados à gravidez ou a tratamentos de quimioterapia. Também é possível usar a hipnose para ajudar crianças com baixo rendimento escolar, influir no desempenho de atletas e na ativação da memória.

Nem todos concordam com tudo. Respeitado no mundo da hipnose, o professor Michael Nash, editor-chefe do International Journal of Clinical and Experimental Hypnosis, nos Estados Unidos, diz que os resultados da técnica com relação a drogas, alcoolismo e tabagismo são dúbios. “Também não acredito em hipnose como forma de regredir a vidas passadas ou à vida intra-uterina: criam-se situações em que adultos passam a agir como crianças”, diz Nash. Por outro lado, segundo ele, é inegável que a hipnose é eficaz no controle da dor. Um trabalho recente feito na Bélgica mostrou que pacientes que foram hipnotizados e se submeteram a cirurgias sentiram menos dores no pós-operatório, precisaram menos de analgésicos e retomaram as atividades normais mais rapidamente. Pesquisas nessa área são antigas. Já no final dos anos 80, a revista da Academia de Ciências de Nova York publicou um importante estudo comparativo demonstrando que a hipnose muitas vezes tem uma performance superior à de medicamentos potentes como a própria morfina. De fato, a técnica tem ajudado muita gente que tem pavor da cadeira do dentista, por exemplo. “Para esses pacientes, a hipnose atenua os sintomas da fobia e diminui a sensação de dor, com alta eficácia na maior parte dos casos”, explica Pedro Polimeni Filho, cirurgião dentista que usa a hipnose em seu consultório, em São Paulo.

Segundo o psiquiatra e psicoterapeuta Auro Lescher, da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), a hipnose deve ser respeitada como parte da história da própria psicanálise. “É uma técnica que põe o ser humano em contato consigo mesmo, o que, por si só, já é positivo.” A ressalva de Lescher é com relação à modernidade da hipnose. “Hoje dispomos de procedimentos eficazes que agem pontualmente e são adequados a cada situação específica. Acho que optar pela hipnose nos nossos dias é a mesma coisa que preferir usar relógio de corda: a hipnose não faz mal, também não é inócua, mas ficou antiga”, opina.

O tempo de um tratamento varia como em qualquer terapia: muitos pacientes conseguem resultados em poucas sessões; para outros, o processo é mais demorado. Cada sessão dura, em média, 50 minutos, e seu preço começa em R$ 80 e pode chegar a R$ 200. O transe hipnótico tem cinco estágios: no primeiro, chamado hipnoidal, as pálpebras ficam pesadas, a musculatura distende e a respiração entra em ritmo lento, compassado. O relaxamento vai se aprofundando: no segundo estado, o leve, as pálpebras parecem que estão coladas, os músculos amolecem, a sensação é de que o corpo está pesado, sem nenhum ponto de tensão. No terceiro nível, o médio, é possível que a pessoa já esteja tão relaxada que nem sinta a picada de uma agulha; no chamado estado profundo, o paciente pode até conversar, se for requisitado —está receptivo às impressões, mas, ao mesmo tempo, desconectado das reações normais de seu corpo. No quinto estágio, o sonambúlico, todas essas sensações atingem seu ápice: aqui, o paciente pode explorar um território desconhecido onde, sem perder a consciência nem o controle das próprias ações, sente algo que os especialistas definem como “tirar férias de si mesmo”.

NO DIVÃ DE FREUD

O pai da psicanálise descobriu a hipnose quando foi estudar com o neurologista francês Jean Martin Charcot, na França. De volta a Viena, Freud passou a usar a técnica para ajudar seus pacientes a se lembrarem de fatos perturbadores que estavam adormecidos no inconsciente, chegando à origem de seus distúrbios neuróticos. Mas, com a evolução de sua teoria da psicanálise, o médico concluiu que a pessoa tinha de estar totalmente consciente para tocar em questões de seu inconsciente, isto é, só poderia chegar à razão de seus problemas se estivesse preparada para compreendê-los e lidar com eles. A partir daí, Freud substituiu a hipnose pela livre associação, técnica em que o paciente é estimulado a falar o que lhe vier à mente, sem nenhuma censura.

UNIVERSO PARALELO

Paulo Renaud, presidente da Associação de Auto-hipnose Ética, do Rio de Janeiro, hipnotizou o jornalista Cássio Leite Vieira a pedido do repórter. Aqui, o relato da experiência:

“Meu corpo desaparece. Sou apenas minha mente. O mundo exterior está lá, mas não me incomoda nem me interessa. Não perdi o controle sobre mim mesmo, só que parece que aposentei tato, olfato, paladar e visão. A audição, ao contrário, está aguçada —escuto as palavras ritmadas do terapeuta mas, secretamente, prefiro o silêncio que estou experimentando. Tenho vontade de permanecer assim por horas, dias, se fosse possível. Estou reclinado em uma poltrona macia. A sala tem pouca luz, temperatura agradável e música new age tocando baixinho. Meus olhos ficaram fechados uns cinco minutos até que o hipnotizador começasse a descrever ondas de relaxamento que nasciam nas pontas dos meus pés e desaguavam na cabeça. Ele pede que eu me imagine na praia, deitado sobre a areia, me misturando nela. A sugestão continua: pelas minhas narinas entra um ar azulado, que sai escurecido, levando a tensão. ‘Vou levantar seu braço direito e ele vai cair porque está muito pesado’, diz ele. É divertido: aquela peça de chumbo parece não ter nenhuma ligação comigo. Agora, a voz pede que eu me lembre de meu primeiro dia de aula. Estou lá, de mãos dadas com minha mãe, olhando meus futuros colegas de jardim-de-infância, meio tímido. Vejo a menina da primeira carteira, quarta fila, lourinha, com um tampão na lente esquerda dos óculos, passando agulha e linha grossas em uma cartela de papelão. Não que a cena seja nova para mim, mas me impressionam o brilho e o detalhamento com que consigo visualizá-la agora. A sensação do contato da mão da minha mãe com a minha é intensa e revigorante. ‘Quando contar até três, você vai abrir os olhos. Um, dois… três.’ Obedeço imediatamente, sem hesitação, interrompendo o que estava sendo um dos momentos mais prazerosos de minha vida. Infelizmente tenho de voltar: a sensação boa continua, mas percebo meu corpo se acoplando à mente, como se fosse um fardo que devo carregar. Confesso: assim que puder, quero mergulhar de novo nesse meu universo paralelo. Descobri um mundo onde fico alheio a tudo e a todos, protegido por uma membrana impermeável à ansiedade e à tensão”.

SETE MENTIRAS

1. Qualquer pessoa pode ser hipnotizada contra a vontade

2. O hipnotizado obedece a qualquer ordem do hipnotizador

3. As pessoas esquecem o que dizem e tudo o que acontece durante uma sessão de hipnose

4. Se o hipnotizador interromper a sessão por qualquer motivo, o hipnotizado vai precisar que outra pessoa o tire daquele estado

5. Esse tipo de procedimento é perigoso para crianças

6. O transe hipnótico tem a ver com o estado de sonambulismo

7. Basta ter imaginação fértil para ser hipnotizado

SETE PERGUNTAS PARA O ESPECIALISTA

O psiquiatra Joel Priori Maia, presidente da Sociedade de Hipnose Médica de São Paulo e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Hipnose responde às dúvidas mais comuns, apontando os limites da técnica e mostrando o que, de fato, a hipnose pode fazer pela saúde

MC – Qual a diferença entre o estado de hipnose e o sono? JPM – Durante o sono, acontece uma redução da consciência, em maior ou menor profundidade, com alterações motoras e de sensibilidade. Já na hipnose ocorrem modificações que afetam as áreas do cérebro que controlam a atenção, a concentração e a memória —a pessoa não dorme, mas pode relaxar até mais do que se estivesse dormindo; a sensibilidade aumenta, criando as condições ideais para que o processo de sugestão seja bem-sucedido. Por conta de todas essas alterações motoras e sensoriais, o paciente vai reagir e produzir respostas diferentes das que daria em circunstâncias normais.

MC – Algumas pessoas são mais facilmente hipnotizáveis do que outras? JPM – Do mesmo jeito que alguém pode ser mais ou menos sensível a uma medicação, o efeito da hipnose varia na sua intensidade, dependendo da capacidade de sugestão de cada um. Também têm influência o ambiente em que se realiza a sessão, a empatia do paciente com o profissional e a capacitação do hipnotizador. Raça, sexo e idade não influem, mas pesquisas recentes demonstraram que, quanto mais sensível for o paciente, mais facilmente ele vai entrar em transe hipnótico.

MC – É verdade que sob o efeito da hipnose a pessoa pode contar segredos, revelar senhas de banco, dizer ou fazer coisas que não diria ou faria em seu estado normal? JPM – Não. Em transe, a pessoa tem acesso a informações que normalmente estão reprimidas, abaixo do limiar da consciência. Mas o paciente está em estado de vigília, permanece alerta e não fica, em nenhum momento, sob o domínio do hipnotizador, ou seja, a pessoa só faz o que quer. Se for estimulada a contar segredos ou a executar atos que contrariem seus princípios morais, a pessoa possivelmente vai despertar logo, quase sempre tensa e ansiosa.

MC – É possível não voltar de um transe? JPM – Não existe relato desse tipo na literatura. Pode ocorrer, porém, que o transe esteja tão confortável e prazeroso que o paciente resista e demore um pouco mais para voltar. Mesmo que o hipnotizador abandone o paciente em transe, este simplesmente acordará sozinho. No entanto, se estiver muito cansada, também é possível que a pessoa passe voluntariamente para o sono natural e acorde se for chamada ou quando estiver descansada.

MC – A hipnose ajuda a parar de fumar e controlar o peso? E com alcoolismo e dependência de drogas? JPM – Como em outras terapias, o sucesso do método nesses casos depende muito da vontade verdadeira do paciente. Mas a sugestão pode ajudar muito, tornando-se um forte coadjuvante no controle do tabagismo, do alcoolismo e nos casos de dependência de drogas. Em transe hipnótico dá para sugerir e induzir hábitos alimentares sadios, que levam à redução progressiva da obesidade, especialmente quando o ato de comer muito tem a ver com estresse ou ansiedade e outras questões de fundo emocional.

MC – E funciona para controlar fobias, ansiedade e depressão? JPM – É na medicina psicossomática, na psicologia e na psiquiatria que a técnica encontra o seu campo mais fértil de aplicação: por exemplo, trata-se de uma das únicas formas de terapia capaz de aplacar e até fazer regredir a ansiedade. Além disso, através da sugestão é possível reeducar o comportamento do paciente, muitas vezes promovendo a solução do problema.

MC – O melhor resultado da hipnose é no controle da dor? JPM – Sim. Antes do surgimento da anestesia química, a hipnose foi exaustivamente utilizada como agente anestésico. Hoje é usada em substituição aos analgésicos tradicionais ou associada a eles para garantir sua eficiência. Dores crônicas, como as da fibromialgia, podem se tornar mais suportáveis. Na prática, o efeito da sugestão é o de transformar o sintoma doloroso em uma sensação de peso, por exemplo. Em outros casos, a dor é suavizada pela calma obtida através da hipnose.

UM OUTRO JEITO DE MEDITAR

Hipnose e meditação têm muito em comum: ambas necessitam de um ambiente favorável, um certo isolamento, uma posição adequada, uma técnica ou ritual de indução e uma certa disponibilidade pessoal para a introspecção. O que as diferencia normalmente é o objetivo. Na hipnose, o estado de calma e harmonia física e mental que se atinge é um pano de fundo para potencializar a ação dos mais variados tratamentos -seja para incrementar a autoconfiança, seja para aliviar dores crônicas. Quem medita, porém, busca o relaxamento profundo como um primeiro estágio para o desenvolvimento da espiritualidade. Há relatos de monges e praticantes de meditação que atingem um estado quase letárgico, com não mais que 30 batimentos cardíacos e duas a três respirações por minuto. O mesmo acontece na última das cinco etapas da hipnose, a sonambúlica: aqui também é notável a diminuição da pressão arterial e do consumo de oxigênio.

Fonte: http://revistamarieclaire.globo.com/Marieclaire/0,6993,EML347741-1744-2,00.html

Hipnose Curitiba – Psicologia Previtali