Este texto é o primeiro capítulo da Monografia apresentada ao 45o Curso de Hipnose Médica da SOHIMERJ para obtenção do título de Hipnólogo pelo Psicólogo Clínico João Manoel Previtali, sob o enfoque psicanalítico e da Neurociência.

Onde estiverem duas pessoas numa relação, seja ela familiar, terapêutica, religiosa, educacional ou profissional temos aí uma situação hipnótica. Freud diz que é impossível exagerar o ganho científico trazido pelo hipnotismo[1].

O termo hipnose vem do grego hipnos que significa sono, e foi cunhado por um médico de Manchester, James Braid, após verificar que podia induzir seus pacientes a um estado de sono. Daí alguns chamarem a hipnose de braidismo. Mais tarde o próprio Braid concluiu que a designação mais acertada deveria ser monoideísmo – fixação de uma única idéia.[2] Esse fenômeno acontece na hipnose aproximadamente com o esquema de Van Pelt, citado por Drakeford,[3] embora ele não  fale de fatores inconscientes.

Esquema de Van Pelt Hipnose

O hipnotismo marcou a vida deste autor desde os tempos que frequentava cursos de natureza livre no Centro de Estudos Oswaldo Cruz do Serviço Municipal de Pronto Socorro de Petrópolis, ao assistir palestras sobre hipnose. O tema lhe causou chegar  ao Curso de Psicologia na Universidade Federal Fluminense, onde foi introduzido às leituras de Freud, mas optou pelo estágio em Psicologia Cognitivo-Comportamental: aprendeu algumas técnicas de relaxamento, ouviu sobre hipnose e teve contato com uma hipnotista convidada. Motivou-se a adquirir o livro Hipnotismo sem Mistério, de Raphael H. Rhodes. Ponto alto que culminou na ideia deste trabalho foi, em 1998, quando cursava na mesma universidade a Especialização em Psicanálise – Latu Sensu, ainda não concluído, e foi assistir, no curso de graduação, uma palestra sobre hipnose e regressão, ministrada pelos professores Waldeque e Jarbas da SOHIMERJ.

1.1  Corrigindo Preconceitos

A hipnose, chegou ao seu auge sob forte desconfiança de alguns, categorizada de ser misteriosa. O Congresso Internacional de Psicologia Fisiológica e o primeiro Congresso Internacional de Hipnotismo, em Paris, ambos em 1889, seguido do segundo Congresso um ano após, 1890,[4] parecem ter sido insuficientes para aplacar essa suspeita. Ainda hoje, em muitos espaços acadêmicos propagam-se inomináveis inverdades sobre a hipnose e não poucos livros difundem imprecisões sobre seus métodos e resultados.  Quando estabelecem diferenças entre psicoterapias sintomáticas e psicodinâmicas, quase sempre a hipnose é apanhada como exemplo de terapia que visa

apenas corrigir fatores negativos circunstanciais e extirpar sintomas. Ora, toda psicoterapêutica que se queira com status de grande obrigatoriamente terá em Freud um referencial indispensável como mentor principal ou para contestá-lo ou ser-lhe indiferente ou contextualizá-lo em achados mais recentes. E é ele quem afirma textualmente:

Inicialmente, Breuer e eu empreendíamos a psicoterapia  por meio da hipnose; a primeira paciente de Breuer foi totalmente tratada sob influência hipnótica, e, no início, eu o segui neste procedimento. Admito que, naquela época, o trabalho avançava mais fácil e satisfatoriamente, e também em muito menos tempo.[5] (grifo deste autor).

O dinamismo do método hipnoterapêutico (a ab-reação) foi atestado por Freud em diversas oportunidades e no texto que se segue, tratando da transferência, diz reconhecê-la na hipnose como o mesmo fator dinâmico agente do rapport. “Podemos facilmente reconhecê-la como o mesmo fator dinâmico que os hipnotistas denominaram de ‘sugestionabilidade’, que é o agente do rapport hipnótico…” [6]. Ab-reação, então, é trabalho psicodinâmico no aparelho mental fazendo o material reprimido assomar à consciência. No alemão, Abreaktion é uma descarga na qual o indivíduo revive um acontecimento traumático que o libera da repressão. Ocorrência que pode se dar espontaneamente, mas que acontece normalmente no processo de um setting terapêutico.[7]

1.2   Os Acertos Da Hipnose

Muitos foram os acertos da hipnose em função de sua praticidade, objetividade e herança. A hipnose nasceu produzindo resultados! Os seus usuários já possuíam um rapport positivo em razão de suas demandas ao procurar os seus operadores.

Antes de se descobrir o éter e o clorofórmio como anestésicos, nos meados do século passado, Dr. Esdaile, na Índia, fez milhares de pequenas intervenções e mais de duzentas cirurgias empregando a hipnose. O aparecimento dos anestésicos sintéticos com rapidez de aplicação e lucro, gerou grande desestímulo ao hipnotismo, mormente que o manejo de seus procedimentos era do domínio de poucos. A hipnoanestesia, pela sugestão pós-anestésica, tem a vantagem de continuar a insensibilidade à dor e de evitar os incômodos produzidos pelas drogas anestésicas.

 hipnose para relaxamento curitiba Relaxamento: No início da hipnose ocorre a ativação de parte do hemisfério “E” pela indução.  criatividade despertada na hipnose Criatividade Alta: Ativação bilateral dos lobos occipitais com aumento da imaginação e visualização.
 hipnose para desativacao de problemas Desativação progressiva do giro frontal superior “E”, com aumento do pensamento dedutivo.  sono profundo com hipnose em curitiba Sono Profundo: Ativação do giro anterior do cíngulo à “D” promovendo alucinações e analgesia.

Hodiernamente aumenta a cada dia a quantidade de dentistas e médicos usando a hipnoanestesia em suas intervenções, associando ou não a anestésicos. Na psicoterapia ela tem produzido resultados incontestáveis em: fobia, estresse, síndrome de pânico, memória, depressão, tabagismo, timidez, ansiedade, insegurança, parto sem dor, gagueira, obesidade, sexualidade, alcoolismo, drogas, controle da pressão arterial, entre outros, oferecendo equilíbrio mente–corpo, posto que se a mente pode produzir a doença, certamente conhece os mecanismos da cura.[8]

1.3     Por Que Freud A Deixou?

É necessário conhecê-lo um pouco. Freud foi um homem de seus dias. Soube explorar isso: estar no meio das discussões, extrair delas o que lhe fosse vantajoso e descartar o que não lhe interessava: coisas, idéias e pessoas! Era autodeterminado, filho de pai avô judeu comerciante de lãs, parcialmente mal sucedido.[9] Ao nascer em 6 de maio de 1856, na Morávia, hoje Pribor, na Tchecoslováquia,  encontrou um sobrinho com quase dois anos. Quando estava com quatro anos, seu pai faliu e mudou-se com a família para Viena, Áustria, onde Freud viveu quase toda a sua vida, sob largo anti-semitismo.

Nos estudos primários sentava-se à frente querendo sempre o primeiro lugar da turma, ingressando no “gymnasium” um ano antes e concluindo-o com dezessete anos. Indeciso sobre a escolha da profissão, as leituras de Goethe sobre a natureza lhe levaram aos estudos da medicina. Leu Darwin, absorvendo-lhe a idéia evolucionista, como também Schopenhauer[10], que era culto, pessimista, voltado à moral e amante da arte, mas com grande aversão pelo Cristianismo. Teria sido aí o seu berço anti-religioso?

O caráter de Freud foi forjado numa época em que os doentes mentais eram tidos como endemoninhados: “Em vez de possuídos por espíritos maus e diabólicos, que justificavam todas as barbáries cometidas contra eles, passaram a ser tratados como seres humanos, vítimas apenas de distúrbios mentais”.[11]

Nesse contexto ele se tornou médico, conheceu a hipnose aplicada por Charcot e  Janet, em Salpetrière, hospital para mulheres loucas, abstraindo aí as geniais idéias sobre o inconsciente, depois em Nancy com Liebault e Bernheim, recebendo as mais fortes impressões sobre a possibilidade de os fenômenos psíquicos poderem permanecer ocultos à consciência.[12]  Foi influenciado pela tradição positivista e pela escola mecanicista alemã que dominava a fisiologia daqueles dias, onde ficou fixado. Aluno no laboratório de Brücke, este o influenciou terminar o curso de medicina, bem como na concepção mecanicista. Brücke, na década de 1840, junto com Ludwig, du Bois-Rois-Mond, Helmholtz, todos com vinte poucos anos, ao fundarem a Sociedade Física de Berlim, fizeram juramento assinando com o próprio sangue, segundo a lenda, de que “As únicas forças ativas dentro do organismo são físico-químicas”. E que influência!

Considere-se que o hipnotismo – mesmerismo à época – havia sido três vezes condenado pela Academia de Ciências de Paris, por entenderem-no místico.

Os supostos aspectos místicos discutidos naqueles dias não agradavam também à Freud. Mais tarde confirmou: “Ainda hoje, a psicoterapia se afigura a muitos médicos como um produto do misticismo moderno, e, comparada a nossos recursos terapêuticos físico-químicos cuja aplicação se baseia em conhecimentos fisiológicos, parece acientífica”.[13]

Além disso, confessou que a despeito dos esforços “não era capaz de hipnotizar todos os pacientes” e era “incapaz de pôr os pacientes individualmente num estado tão profundo de hipnose como teria desejado”.[14] Também reclamava do cansaço do ato de hipnotizar e de não suportar a escopofilia (pulsão do olhar) em trabalhos que iam a mais de oito horas no consultório, quando desejava que a transferência não se misturasse às associações do paciente transformando-se em resistência,[15] o que não conseguiu evitar.

Premido pelo entorno, Freud achou a hipnose uma terapia vulgar,[16] abisma-se com certos doentes lutando contra a recuperação, para ficar na dependência do médico.[17]

Como se vê, Freud, nesse ínterim arranja uma série de arrazoados para suas suspeitas: refere-se a dificuldades que podem aparecer no tratamento dizendo que “é o caráter autocrático das personalidades psiquicamente tão diversas que estorva a regularidade dos resultados terapêuticos” e pretendia ter o controle total da cura.[18]. Desejava o tratamento à moda da pesquisa experimental pela manipulação de variáveis com animais em laboratório. Conquanto, não há dúvida que o caso de Ana O., incluindo Breuer em suas fantasias deixou Freud com anticorpos sobre as fontes da histeria, se não haveria também um elemento místico. E chega ao paroxismo de sua desconfiança com um incidente ocorrido com uma das melhores pacientes da hipnose achando que o fenômeno fosse espiritual, afirmando claramente:

Abandonei o hipnotismo e procurei substituí-lo por algum outro método, porque estava ansioso por não ficar restringido ao tratamento de condições histeriformes. Uma maior experiência também dera lugar a duas graves dúvidas em minha mente quanto ao emprego do hipnotismo, mesmo como um meio para a catarse. A primeira foi que até mesmo os resultados mais brilhantes estavam sujeitos a ser de súbito eliminados, se minha relação pessoal com o paciente viesse a ser perturbada. Era verdade que seriam restabelecidos se uma reconciliação pudesse ser efetuada, mas tal ocorrência demonstrou que a relação emocional pessoal entre médico e paciente era, afinal de contas, mais forte que todo o processo catártico, e foi precisamente esse fator que escapava a todos os esforços de controle. E certo dia tive a experiência que me indicou, sob a luz mais crua, o que eu há muito tinha suspeitado. Essa experiência ocorreu com uma de minhas pacientes mais dóceis, com a qual o hipnotismo me permitira obter os resultados mais maravilhosos e com quem estava comprometido a minorar os sofrimentos, fazendo remontar seus ataques de dor a suas origens. Certa ocasião, ao despertar, lançou os braços em torno do meu pescoço. A entrada inesperada de um empregado nos livrou de uma discussão penosa, mas a partir daquela ocasião houve um entendimento tácito de que o tratamento hipnótico devia ser interrompido. Fui bastante modesto em não atribuir o fato aos meus próprios atrativos pessoais irresistíveis, e senti que então havia aprendido a natureza do misterioso elemento que se achava em ação por trás do hipnotismo. A fim de excluí-lo, ou de qualquer maneira isolá-lo, foi necessário abandonar o hipnotismo.”[19] (grifo deste autor).

Tentando achar um instrumento mais asséptico, para si, com que pudesse tratar com menor risco a carga de afeto que sempre o paciente endereça ao terapeuta na hipnose, Freud mudou do método hipnocatártico para a o “método fundamental” ou da “livre associação”. Esse desvio, porém, não lhe valeu todo o investimento feito. Pensou que tivesse construído uma muralha inexpugnável contra o elo afetivo que liga o paciente à pessoa do terapeuta. Pois, o paciente percebendo aproximar-se sua autonomia, volta-se contra o terapeuta e o tratamento, usando a transferência em forma de resistência – a reação terapêutica negativa – que ele só vai se dar conta mais tarde. O que se deu com sua paciente, mas era cedo de mais para ele perceber. Este lamentável episódio para o hipnotismo levou o preclaro Gilliéron afirmar que “a passagem da hipnose ao método das associações livres foi precoce e o elementos que determinam o ‘método psicanalítico’ de Freud quase não se alteram desde 1904 até 1939”. Por isso, mais amadurecido, num escrito de 1921, Psicologia de Grupo e Análise do Ego, o editor comenta que Freud “retorna a seu primeiro interesse pelo hipnotismo e pela sugestão, que datava de seus estudo com Charcot em  1885-6″[20] e o próprio Freud ameniza a situação dizendo: “a hipnose tem algo de positivamente misterioso, mas a característica de mistério sugere algo de antigo e familiar que experimentou uma repressão.” [21] e o mais esclarecedor para o hipnotismo estava por vir num texto inacabado escrito em Londres em 20 de outubro de 1938, onde praticamente se despedindo do mundo científico afirma o valor da hipnose para a pesquisa.

Finalmente, é possível, no caso de pessoas em estado de hipnose, provar experimentalmente que existem coisas tais como atos psíquicos inconscientes e que a consciência não constitui condição indispensável da atividade [psíquica]. Todo aquele que tenha assistido a uma experiência desse tipo receberá uma impressão inesquecível e uma convicção que jamais poderá ser abalada.[22]

É bom que se constate que este foi o último texto técnico de Freud publicado postumamente e terminado com reticências (…)

Hipnose Curitiba – Psicologia Previtali