O lado sério da hipnose

Reportagem / hipnose / Revista GALILEU

A ciência explica como a técnica tem ajudado pacientes a deixar de fumar, perder peso, combater estresse e tratar dores crônicas

Guilherme Pavarin e Tiago Mali

Hipnose 1

A psicóloga Lina Schlachter ouve gritos vindos da emergência do centro médico da Universidade de Tennessee, nos Estados Unidos, e se apressa. No corredor do setor de traumas, depara-se com um mecânico de 42 anos urrando de dor. Ele teve a perna direita destroçada após um acidente em uma das fábricas da região e está imobilizado, suando muito. Após encontrar com Lina, pouco a pouco, os gritos do paciente se transformam em gemidos, cada vez mais baixos. Dez minutos depois, ele relata que a dor, antes insuportável, não o incomoda mais. No lugar, diz haver apenas um formigamento. Tudo isso, sem nenhum sedativo. A cearense Lina, doutora em psicologia clínica pela Universidade do Tennessee, não faz mágica. “Foram exercícios de respiração e uma série de sugestões para que ele se concentrasse, pensasse no lugar de que mais gosta de passear e começasse a relaxar”, diz. O caso do acidente, apresentado em uma conferência médica nos Estados Unidos em 2008, é um exemplo de como a medicina tradicional tem se aliado a certas técnicas de hipnose para combater diversos problemas de saúde. Ele se soma a uma série de pesquisas publicadas em alguns dos periódicos científicos mais rigorosos do mundo, como Science, The Lancet e Proceedings of the National Academy. E o que esses estudos afirmam? Que dá, sim, para tratar dores crônicas, insônia, enxaqueca, obesidade, vícios, fobias, doenças de pele, entre outros males, com hipnose. Mas não é aquela hipnose de estalar dedos e fazer com que o problema desapareça. São sessões com método definido, em tratamentos que podem levar meses. Não à toa, há cada vez mais cientistas e pesquisadores “hipnotizados” pelo tema. O número de estudos publicados por ano sobre o assunto cresceu 50% na última década, chegando a 280 só em 2009 (último ano com números fechados), segundo o banco de dados científico Pubmed. Entre as pesquisas recentes, destaca-se levantamento com 124 mulheres realizado em 2010 na Universidade de Stanford que constatou que a prática da hipnose pode atenuar o sofrimento de pacientes com câncer de mama. Outro trabalho, feito em 2008 na Universidade da Califórnia, avaliou fumantes que usaram a técnica para largar o cigarro — o grupo de hipnotizados teve 50% mais sucesso no tratamento em relação ao outro time. Quem hipnotiza hoje não são showmen com ar sombrio, jeito de ilusionista e papo de charlatão. Os novos hipnotizadores têm diploma de médico, psicólogo ou dentista, e preferem ser chamados de hipnólogos. Não se encontram em programas de variedades, mas em locais como o Hospital das Clínicas, o A.C. Camargo e o São Camilo, todos em São Paulo, além de clínicas médicas renomadas. “A prática vem crescendo bastante no Brasil, principalmente contra problemas de somatização, quando uma doença se manifesta ou se agrava por causa de algum distúrbio emocional. Os conselhos federais de medicina, psicologia, odontologia e fisioterapia já a aprovam”, diz a psicóloga Miriam Pontes, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Hipnose, que conta com 2 mil profissionais associados em todo o Brasil.

Hipnose 2

Crédito: Victor Affaro

BISTURI SEM ANESTESIA  Ao saber que teria de arrancar um nódulo mamário no seio, a diarista Andreia Peres Maranhão, 34 anos, ficou com medo de não conseguir mais amamentar. Ela havia acabado de ter um bebê e, com o efeito dos anestésicos, o leite poderia ser comprometido. Quando a anestesista Cristiane Hikiji lhe contou sobre a possibilidade de realizar anestesia por hipnose, Andreia decidiu experimentar. Foram 12 sessões preparatórias até a cirurgia. “Já tinha tirado outro tumor no seio e foi difícil recuperar, mas com a hipnose foi rapidinho, não doeu em nenhum momento”

COMO FUNCIONA

Olhe fixamente nos meus olhos e esqueça toda aquela ideia de pêndulo, comer cebola achando que é maçã, cocoricar feito um galo e outras pirotecnias. Cientificamente falando, a hipnose é um estado em que a percepção, a memória e as ações de alguém podem ser alteradas por sugestão de outra pessoa. Alguns têm facilidade imensa em serem hipnotizados; outros, raramente conseguem. “O indivíduo fica consciente, mas o cérebro temporariamente suprime as tentativas de confirmar as informações vindas dos sentidos. O senso crítico baixa e há uma atenção maior no que o hipnotizador sugere”, diz Osmar Colás, coordenador do Grupo de Estudos da Hipnose da Escola Paulista de Medicina. Trabalhada adequadamente, essa hiperatenção pode, por exemplo, fazer com que a gente ignore sensações enviadas pelo corpo. É como um jogador de futebol quando sofre uma pancada forte na perna durante a final do campeonato, mas continua jogando, só sentindo a dor depois do término da partida. No cérebro, já descobrimos algumas das regiões onde esse fenômeno ocorre. Estudos com neuroimagens mostram que o giro do cíngulo anterior direito, uma área responsável por levar informações dos sentidos até a nossa parte racional, é atingido pela hipnose. “A sugestão chega a essa região intermediária, que é quem vai decidir para onde vai a atenção, como se inoculasse um pensamento na cabeça da pessoa”, diz Mohamad Bazzi, médico brasileiro que estuda hipnose há duas décadas. É ali que pesquisadores acreditam que a “autentificação” falha. Foi provavelmente o que aconteceu com o mecânico citado no começo desta reportagem quando, após as repetidas sugestões, deixou de se focar na informação de dor da perna destroçada. O caso dele, no entanto, não é regra: apenas 10% da população mundial é altamente suscetível à hipnose (veja como isso é medido no quadro abaixo). Para pessoas menos passíveis, leva-se tempo até chegar a um transe profundo — e, ainda assim, não há garantia de que ela consiga atingir esse estado. A diarista Andreia Peres Maranhão, 34 anos, por exemplo, precisou passar por 12 sessões durante um mês até estar pronta para uma cirurgia de retirada de um nódulo mamário, feita em transe hipnótico. “Já tinha tido uma experiência ruim com anestesia antes e estava amamentando [a amamentação teria de ser interrompida por conta do uso do sedativo]”, diz. Durante as sessões, a anestesista Cristiane Hikiji Nogueira fazia com que Andreia treinasse seu cérebro a desviar a dor. No começo, girava uma caneta em frente aos olhos da paciente, que começava a relaxar. Então, passava a espetar Andreia com agulhas finas e dizia que aquela região não seria mais sentida. Nas sessões seguintes, conforme ela ia conseguindo ignorar a dor, o diâmetro das agulhas aumentava até se aproximar do tamanho que seria equivalente ao bisturi. Os anestésicos tradicionais também foram preparados na operação, para o caso de emergências, mas se mostraram desnecessários. “Já fiz mais de 30 cirurgias só com hipnose e nunca tive problemas”, afirma Cristiane, que hipnotizou Andreia no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto. Como toda essa preparação é demorada, a hipnose na maioria das vezes acaba sendo a segunda opção, usada principalmente quando o paciente tem pavor ou alergia à anestesia. Também é possível juntar as duas coisas: hipnose e anestésicos. Foi o que fez a professora paulistana Gabriela Talarico, 32 anos, ao retirar dois dentes do siso. Gabriela, que tinha medo demais de anestesia, estava em pânico quando chegou ao consultório do dentista Marcelo Martins. Com repetidas sugestões de relaxamento, Martins fez Gabriela entrar em transe, ficando menos suscetível às reações de dor, e administrou apenas um terço da quantidade normal de anestésico. “Como não houve preparação, a hipnose não foi tão profunda, mas foi o suficiente para acalmá-la e obter melhorias de cicatrização e de controle de sangramento”, afirma. No Centro de Dor do Hospital das Clínicas de São Paulo, técnicas mais longas são ensinadas para lidar com dores crônicas como enxaqueca e fibromialgia. “Ensinamos exercícios de auto-hipnose para que os pacientes repitam em suas casas”, diz Adriana Loduca, psicóloga do hospital. Uma das técnicas começa com exercícios de respiração em seis etapas e depois evolui para concentração em algum tipo de imagem, para que o cérebro se desvie da dor.

Hipnose 3

Crédito: Victor Affaro

TERAPIA CONTRA O FUMO  Acostumado a fumar um maço de cigarros por dia, o auxiliar de enfermagem Anderson Soares da Silva, 34 , tentou usar adesivos e remédios para parar. “Ficava irritado demais.” Ele se livrou do vício no fim de 2009, quando experimentou a hipnose aliada à psicoterapia por três meses. Nas sessões, o médico Luiz Velloso pedia para que ele imaginasse o cheiro forte do cigarro na sala vazia até se tornar algo incômodo. Depois, sugeria imagens de praias paradisíacas e mensagens metafóricas para reforçar sua força de vontade em largar o fumo. “Nunca mais senti vontade”, afirma.

A CIÊNCIA DA HIPNOSE

Apesar de impressionantes, exemplos desse tipo eram antes encarados com ceticismo por acadêmicos. Como provar que não se tratava de efeito placebo, ou que alguns desses casos não eram forjados? A maior parte dessas dúvidas caiu em 1998, quando os cientistas com Ph.D. Stephen Kosslyn, da Universidade de Harvard, e David Spiegel, de Stanford, usaram o PET (tomografia por emissão de pósitrons, um exame de imagem sofisticado) para “fotografar” a hipnose. Eles sugestionaram indivíduos a enxergarem cores em um painel preto e branco e constataram que os cérebros agiam como se realmente existissem cartazes coloridos na frente. “O fluxo sanguíneo no cérebro repetiu o padrão de quando a pessoa enxerga colorido. Ou seja, o cérebro estava realmente ‘vendo’ aquilo”, diz Spiegel, que estuda hipnose desde os anos 1970. Considerado um divisor de águas, o estudo gera frutos até hoje. Tanto que, em 2010, o pesquisador Devin Terhune, de Oxford, usou um princípio parecido para mostrar como a hipnose poderia ser usada para um feito antes tido como impossível: reverter a sinestesia. A doença rara leva a uma confusão de sentidos no cérebro, como, por exemplo, enxergar imagens inexistentes ao ouvir determinados sons. No caso da voluntária tratada pelo experimento, cores fortes surgiam no seu cérebro todas as vezes em que ela via um rosto. Induzindo o transe, Terhune desviou o “caminho cerebral” durante o fenômeno fazendo com que ela ignorasse as cores que apareceriam em sua mente. Um eletroencefalograma confirmou o efeito. “Ela relatou que não tinha mais espasmos de cor ao ver faces e, ao mesmo tempo, a área ligada à confusão mental no cérebro reduziu sua atividade elétrica”, afirma Terhune. O pesquisador ressalva que tudo isso só funcionou porque a voluntária era altamente hipnotizável.

Hipnose 4

Crédito: Victor Affaro

RETIRADA DE SISO DURANTE O TRANSE  Toda vez que ouvia falar em anestesia no dentista, a professora Gabriela Talarico, 32 anos, sentia a espinha arrepiar. Quando soube que teria que arrancar dois sisos, não conseguiu disfarçar a tensão. Para acalmá-la, o odontologista Marcelo Martins pediu para fazer alguns exercícios de hipnose e teve uma resposta positiva. “Não doeu nada na hora ou depois”, diz Gabriela. “Senti uma calma fora do comum.” As sugestões hipnóticas, segundo Martins, ainda fizeram a cicatrização ser três dias mais rápida e potencializaram o efeito do anestésico, usado em um terço da quantidade habitual

PSICOLOGIA A MAIS

Atacar a dor é o efeito mais conhecido dessa reorganização mental, mas está longe de ser o único. A maior parte das possibilidades está na área de distúrbios psicossomáticos e comportamentais. Males como insônia, fobias, hipertensão e obesidade muitas vezes estão bastante relacionados a fatores psicológicos. É nesses casos — e não em todos — que a hipnose pode dar uma boa ajuda. Foi o que mostrou em 1995 Irving Kirsch, um dos maiores especialistas em hipnose clínica do mundo e Ph.D. em psicologia pela University of Southern California. Em uma grande revisão de estudos, Kirsch constatou que a prática melhorava, em 70% dos casos, os efeitos positivos das terapias baseadas em psicologia cognitivo-comportamental, que é a forma mais popular e difundida de tratamento para esses problemas. A relações-públicas Simone Araújo, 35 anos, comprovou esse benefício. Ela sofre de dermatite atópica, uma doença incurável que provoca descamação, coceira e manchas avermelhadas pelo corpo, e que piora em momentos de estresse. Após tentar uma série de tratamentos e tomar dezenas de remédios, ela conseguiu uma grande melhoria do problema usando hipnose aliada à psicoterapia. “Era minha última esperança. Antes, estava difícil até mesmo abraçar meus filhos porque eu sentia muita dor com a pele machucada. Hoje abraço, beijo e levo até beliscão”, diz Simone. Ela trabalhou sua ansiedade nas sessões de hipnose. Fazia uma série de exercícios de respiração que estimulavam o seu relaxamento até entrar em transe. Esse estado era realçado por instruções para imaginar situações de tranquilidade. “Amenizava a ansiedade, era como uma boa noite de sono. Sentia uma melhora grande até a próxima sessão.” O humor de Simone melhorava e, depois do segundo mês, as manchas também. Se ajuda na parte psicológica, a hipnose também tem efeito contra vícios como o tabaco e pode ser usada contra transtornos obsessivos compulsivos. Para o auxiliar de enfermagem Anderson Soares da Silva, 34 anos, a hipnose foi o componente que faltava em seus tratamentos. Antes, ele havia tentado largar o cigarro com adesivos e até antidepressivos, mas ficava no máximo dois dias sem fumar. “Só deu certo quando juntei hipnose a outros remédios. Foi um processo de dois a três meses até conseguir parar definitivamente”, diz Anderson Soares, que conta um ano sem cigarros.

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SEM ESTRESSE > Logo depois que terminou a faculdade, a publicitária carioca Fabríssia Lima, de 23 anos, passou a enfrentar crises de ansiedade devido às pressões do trabalho. “Sentia muita angústia, ficava asfixiada, não conseguia frequentar lugares fechados, nem andar de metrô.” Por sugestão de uma conhecida, procurou a psicóloga Miriam Pontes para tentar dar uma aliviada no estresse e na tensão. Em menos de quatro meses, com uma sessão de hipnose por semana, Fabríssia notou grandes melhorias no humor e na sua capacidade de concentração

PERDER PESO

Imagine se alguém lhe dissesse que, para emagrecer, não seria necessário fazer cirurgia de estômago, mas apenas fingir ter feito uma? Pois é mais ou menos esse o tratamento já vendido a 500 pacientes por cerca de R$ 3.400 na clínica de hipnose Elite, em Málaga, Espanha. A terapia também diz usar esse efeito psicológico da hipnose. “O paciente é sugestionado a pensar que passou por uma cirurgia de redução de estômago”, diz o hipnólogo espanhol Martin Shirran, sócio da empresa. Para aumentar o poder de persuasão, é armada uma espécie de teatrinho, simulando no ambiente cheiro, tato e sons típicos de um procedimento em uma sala de cirurgia. No final, diz Shirran, o paciente fica com uma imagem no inconsciente de que o estômago está menor, uma espécie de alucinação, e sente que não suporta muita comida. O tratamento virou febre no Reino Unido depois de ter sido usado pela cantora Lily Allen e pela ex-Spice Girl Geri Halliwell. O arquiteto Felipe Caribe diz ter obtido sucesso com uma experiência parecida em Curitiba. Após várias outras tentativas, ele diz ter emagrecido 14 quilos em três meses de sessões de psicoterapia somadas à hipnose. “Fui sugestionado a sentir que existe um balão inflado dentro do meu estômago que me impede de comer muito”, diz Caribe, que ainda tem 103 quilos e 1,80 m. Apesar da ideia extravagante, há estudos sérios mostrando que a hipnose pode, sim, em casos relacionados à ansiedade, ajudar na redução de peso — embora nenhum cite esse tipo de “cirurgia hipnótica”. FUTURO DAS PESQUISAS Um dos próximos passos da ciência da hipnose se aproxima um pouco do teatrinho da clínica espanhola. Há um grupo de cientistas ingleses da Universidade de Greenwich estudando como um ambiente de realidade virtual pode potencializar os efeitos da prática. Outra frente de pesquisadores tenta entender as características genéticas que levam algumas pessoas a serem mais hipnotizáveis que outras. Pelo menos quatro estudos já mostraram que um gene chamado COMT está relacionado à suscetibilidade, mas sua ação exata ainda não é totalmente compreendida. Há também vários grupos de estudo que desejam simular doenças por meio de hipnose para entendê-las melhor. Um dos líderes dessa corrente é o britânico David Oakley, Ph.D. em psicologia clínica e professor da University College London. Ele publicou uma revisão de iniciativas na área em 2009, em que reúne experimentos nos quais pessoas são hipnotizadas para sentir alucinações auditivas, calor e tipos diferentes de dor, fazendo com que o cérebro simule algo imaginário. Esses estados cerebrais induzidos poderiam ser usados em um ambiente controlado para entender melhor como algumas doenças afetam as pessoas. Uma que já está sendo pesquisada é o transtorno de conversão, que pode gerar paralisia, cegueira e dificuldades motoras. Outros estudos interessantes são desenvolvidos pelo neurocientista israelense Avi Mendelsohn, que mostrou como o cérebro de pessoas suscetíveis ao esquecimento após a hipnose (10% da população) pode bloquear a ativação da memória. Seus estudos também apontam a possibilidade de criar lembranças falsas. “No futuro acredito que muitos poderão usar a hipnose para bloquear as memórias que estão perturbando suas vidas, ou ao menos suprimir emoções ruins ligadas a essas recordações”, afirma. CUIDADOS Há muito de hi-tech nas novas pesquisas, mas o que a maioria dos cientistas da área ainda quer é confirmar a eficácia do tratamento para outros tipos de doenças. “Há um esforço em melhorar a qualidade dos estudos. Alguns são bons, mas boa parte ainda precisa se adequar a padrões de qualidade mais altos para não serem contestados”, afirma Donald Robertson, diretor do UK College of Hypnosis & Hypnoterapy, que revisou dezenas de estudos sobre o tema. Com mais e mais livros a respeito (só na Amazon, foram registradas 660 novas publicações em 2010), há a tentação de se “provar” rapidamente a eficácia contra vários males. “Temos que entender que a hipnose não é uma panaceia, não tem nada de milagroso. Para a maioria das pessoas, só funciona junto com outras técnicas e em um tratamento prolongado. Ninguém vai dizer ‘pronto, a partir de agora você não fuma mais’. Isso não existe”, diz Mohamad Bazzi.g

OS MITOS DA HIPNOSE

Cientistas esclarecem enganos sobre a prática > Depois de hipnotizada, a pessoa esquece tudo Só esquece quando o hipnotizador dá um comando para que isso aconteça. Esse fenômeno não espontâneo é chamado “amnésia pós-hipnótica” e só é possível em pessoas muito suscetíveis à hipnose, cerca de 10% da população mundial > O hipnotizado faz tudo o que o hipnotizador quiser As pessoas podem sair do transe se sugestionadas a fazer algo que vá contra os seus princípios. Também é mentira que alguém possa “não voltar de um transe” ou ser hipnotizado à revelia. A hipnose depende da vontade de seguir as orientações do hipnotizador > Imaginação fértil é fundamental Há diversos modos de indução ao transe, como as sugestões baseadas em palavras e repetições, que não exigem habilidade de projeção mental > Hipnose é similar ao sono Imagens cerebrais mostram que o hipnotizado fica acordado e consciente > Relaxamento é essencial para o transe Embora o mais comum seja induzir à hipnose com técnicas de relaxamento, em 1999 pesquisadores da Universidade do Texas e de Wisconsin fizeram um grupo de pessoas altamente hipnotizáveis entrar em transe enquanto pedalavam bicicletas ergométricas e desconstruíram o mito > Pessoas com maior senso crítico são difíceis de hipnotizar Não há, até hoje, nada que ligue sensibilidade hipnótica à personalidade. Os estudos, aliás, vão no caminho oposto: de mostrar que esse tipo de característica é indiferente. Pesquisas recentes dão indícios de que existam alguns genes ligados à suscetibilidade

O QUÃO HIPNOTIZÁVEL VOCÊ É?

A Escala de Stanford é a avaliação mais usada pelos cientistas para determinar até que ponto alguém é sugestionável. São 12 atividades para testar a profundidade da hipnose, com pontuação indo de 0 (para quem não responde a nenhuma sugestão) a 12 (indivíduos profundamente hipnotizáveis). A maioria pontua entre 5 e 7, e 95% das pessoas marcam pelo menos 1. Veja ao lado uma versão simplificada da escala e entenda o teste: 1 – PESO INVISÍVEL A pessoa levanta o braço direito no nível do ombro, com a palma da mão para cima. O pesquisador pede que o indivíduo imagine segurar um objeto pesado e sugere que o peso se torna cada vez maior MARCA-SE PONTO: Se, dez segundos após a sugestão, o braço abaixar pelo menos 15 centímetros 2 – SEPARAÇÃO DE MÃOS Estendem-se os braços para frente com uma palma da mão voltada à outra, mas não encostadas. Pede-se para imaginar que uma força separará as duas mãos. A instrução é repetida várias vezes MARCA-SE PONTO: Se, depois de 10 segundos, as mãos se afastarem 15 centímetros ou mais 3 – MOSQUITO O hipnotizador sugere que há um mosquito voando pela sala e que ele pousa sobre a mão, voa, e volta a aterrissar no braço do voluntário MARCA-SE PONTO: Qualquer careta ou sinal de que o pouso do mosquito foi sentido 4 – GOSTO Sugere-se que um gosto doce vai se tornando cada vez mais forte na boca e, depois, que um sabor azedo se torna predominante MARCA-SE PONTO: Se o entrevistado diz ter percebido os dois sabores fortemente. Sentir apenas um “gostinho” não é considerado 5 – RIGIDEZ DO BRAÇO O pesquisador pede para o indivíduo estender o braço direito e diz que ele está ficando cada vez mais duro, que não será mais possível dobrar o cotovelo. Depois, pede que a pessoa tente flexionar a articulação MARCA-SE PONTO: Se, após 10 segundos, o indivíduo não tiver conseguido dobrar o braço a 5 centímetros da posição inicial 6 – SONHO A pessoa deve se deitar enquanto ouve que irá dormir e sonhar. O hipnotizador dá a ela 2 minutos de silêncio MARCA-SE PONTO: Se, após esse tempo, a pessoa disser que sonhou e descrever em detalhes o que viu 7 – REGRESSÃO DE IDADE É sugerido um retorno à quarta série do primário, como se a pessoa estivesse na sala de aula. O entrevistador acorda o hipnotizado e pede que a idade seja escrita no papel MARCA-SE PONTO: Se a idade escrita não for correspondente com a atual 8 – PESO DO BRAÇO O indivíduo testado é levado a pensar que seu braço esquerdo começa a ficar cada vez mais pesado e difícil de levantar. O hipnotizador pede para que ele tente mover o braço para cima MARCA-SE PONTO: Depois de 10 segundos, se a pessoa não conseguir mover o braço mais de 2 centímetros 9 – CHEIRO O hipnotizador repete que a pessoa não será capaz de sentir nenhum odor. Depois, abre uma garrafa com óleo de hortelã ou com amônia sob o nariz do indivíduo e pede para que ele cheire MARCA-SE PONTO: Se a pessoa não conseguir sentir o odor 10 – ALUCINAÇÃO DE VOZES O hipnotizador mente dizendo que um colega, fora dali, quer fazer outras perguntas ao indivíduo pesquisado, e que elas poderão ser ouvidas em segundos por um alto-falante afixado na parede MARCA-SE PONTO: Se pelo menos uma resposta é dada às questões imaginárias 11 – ALUCINAÇÃO VISUAL O pesquisador coloca três objetos coloridos de plástico sobre a mesa, mas diz ao voluntário que, quando ele abrir os olhos, enxergará dois objetos MARCA-SE PONTO: Se o hipnotizado contar apenas dois objetos 12 – INSTRUÇÃO PÓS-HIPNÓTICA No final da sessão, o hipnotizador diz que a pessoa sairá do transe depois que ele contar até 20, mas antes se esquecerá de tudo o que aconteceu. Ele também afirma que, depois de acordar, a pessoa terá vontade de levantar e mudar de cadeira assim que vir o pesquisador pegar determinado lápis MARCA-SE PONTO: Se a pessoa, depois de sair do transe, fizer qualquer movimento parcial em resposta ao fato de o hipnotizador pegar o lápis

ENTREVISTA: SCOTT LILIENFELD

“Tratar só com hipnose é um erro” Especializado em estudar riscos da hipnose, o Ph.D. em psicologia Scott Lilienfeld revisou criticamente diversos estudos sobre o tema. Segundo o professor da Emory University, existem evidências de benefícios em tratamentos com a sugestão, mas há de se tomar cuidados. Confira o que ele pensa sobre a prática. Os médicos devem usar hipnose? As pesquisas indicam que essa técnica provavelmente não é recomendável como um tratamento por si só. Mas há evidências fortes nos últimos anos sugerindo que ela pode ser útil, se acompanhada de tratamentos de psicologia comportamental contra distúrbios, somatização e dores. Por que não usá-la sozinha? Ela não contém os ingredientes comprovadamente efetivos para mudanças de comportamento. Para tratar a ansiedade eficientemente, por exemplo, temos de expor as pessoas aos medos e fazer com que elas os confrontem, de maneira sistemática. A hipnose não faz isso sozinha. O transe da hipnose é comprovado? A hipnose existe, mas não vejo boas evidências de que o transe seja um estado distinto de consciência, ao contrário do que dizem muitos cientistas. Eles estão vendo modificações cerebrais por meio de técnicas de neuroimagem. Identificaram que o cíngulo anterior direito fica mais ativo durante a hipnose, o que não é tão surpreendente porque essa é a área responsável por conflitos no cérebro. Esses estados cerebrais também acontecem em outras ocasiões. Há usos não indicados de hipnose? Aqui nos Estados Unidos, a maioria dos estados admite que relatos de hipnose sejam usados como provas em julgamentos, o que é temerário. Muitos investigadores hipnotizam testemunhas para conseguir mais detalhes de uma cena do crime, por exemplo. Não há estudos em nenhum lugar que deem suporte a essa ideia. As evidências, pelo contrário, sugerem que a hipnose mais aumenta o risco de suscitar uma memória falsa do que de recuperar uma memória verdadeira. As pessoas hipnotizadas mostram mais vontade de reportar qualquer coisa, incluindo fatos sobre os quais elas não têm certeza.

HIPNOSE E CIRCO

Pêndulos, agulhas atravessando a pele sem dor e pessoas passando constrangimentos são alguns dos clichês pelos quais a maior parte de nós conheceu a hipnose. A maior questão desses espetáculos não é serem de verdade ou não (boa parte usa técnicas que realmente existem), mas o efeito que podem provocar. Para médicos e estudiosos, há dois malefícios. O primeiro é toda a aura de ocultismo que permanece sobre o tema, em boa parte por causa da impressão causada pelos shows. O segundo é que a chamada “hipnose de palco”, se executada por gente inexperiente, também pode gerar distúrbios psicológicos. Um caso famoso envolve um ex-combatente do exército americano que, após um ano de aposentadoria na década de 70, entrou em um surto psicótico assim que foi hipnotizado durante uma apresentação. Pensando ser um prisioneiro de guerra, assaltou um estabelecimento e, depois de três horas, já não se lembrava do ocorrido. O homem só saiu do surto após meses de sessões de psicoterapia e, segundo o estudo do Ph.D. em psicologia Harold J. Wain, mostrou que pessoas como ele, com algum trauma ou predisposição a problemas psíquicos, podem ativar uma patologia numa sessão de hipnose mal guiada. “Qualquer prática medicinal levada por leigos é perigosa”, diz o pediatra Luiz Carlos Motta, presidente da Sociedade Brasileira de Hipnose e Hipniatria. Mas também há exemplos positivos relacionados à hipnose de palco. No Brasil, o mais famoso showman da modalidade, Fábio Puentes, treinou profissionais na área de hipnose do Grupo de Dor do Hospital das Clínicas, em São Paulo. Ele é voluntário no hospital. “Quando temos alguém com muita dor e que atrapalha a recuperação, como um câncer na mandíbula, chamamos o Fábio para nos ajudar”, diz a psicóloga Adriana Loduca. Seria uma exceção?

GALILEU É HIPNOTIZADA

Colocamos à prova o hipnotizador Fábio Puentes, que conseguiu sugestionar três profissionais da equipe da revista. Confira o relato do diretor de arte Ricardo Martins, que entrou em transe profundo e teve seu pescoço atravessado por uma agulha médica sem sentir dor “Depois que fechei os olhos e relaxei, ele começou a pressionar as minhas pálpebras, dizendo que eu não conseguiria mais abrir. Quando tirou a mão, eu, de fato, não conseguia. Fiquei um pouco preocupado, mas, por alguma razão, isso não parecia tão importante. Vinha à minha mente a voz dele dizendo para eu continuar relaxado, e aquilo parecia fazer mais sentido. Quando ele me balançou, perdi o equilíbrio e não fiz o natural, que seria me apoiar. Acabei caindo na cadeira, mas sem me sentir impotente. Pensei, depois, “vamos levantar e acabar logo com isso”, só que, em seguida, a voz dentro da minha cabeça dizia “continue relaxado”. Era um conflito interno, mas a instrução do Fábio era mais forte. Não tinha vontade de me mover ou reagir, mas ouvia e entendia tudo o que estava acontecendo ali. Não senti o momento em que ele atravessou o meu pescoço com uma agulha, embora pensei que pudesse acontecer alguma coisa errada quando ele disse “não vai doer”. Fui me deixando levar, como se o meu cérebro quisesse fazer aquilo, embora não fosse uma vontade totalmente minha. O mais impressionante é que sabia que estava sendo induzido, mas tudo parecia seguro. Não senti medo. Eu tinha certeza de que isso era charlatanismo, mas vi que há algo sério por trás.”

Fonte: http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,ERT198264-17773,00.html

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