Por trás da tristeza, a química da depressão

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A depressão é diferente daquela tristeza passageira, da vontade de não fazer nada por um ou dois dias, da alteração momentânea do humor.

A doença vai muito além: “ela desencadeia uma série de reações em nosso organismo”, explica José Cássio Pitta, Professor Assistente do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “Desde a deficiência no nível de alguns neurotransmissores até alterações nos níveis de alguns hormônios”, complementa o psiquiatra.

Sabe-se que na depressão há a diminuição nos níveis dos neurotransmissores serotonina, noradrenalina e dopamina – responsáveis por transmitir informações entre os neurônios, especialmente relacionadas à regulação de humor, energia, sono e motivação. Com menos “mensageiros”, a comunicação entre neurônios fica prejudicada e também a regulação das funções desses neurônios. A partir daí, o corpo – e a mente – começam a padecer.

A deficiência de neurotransmissores traz ainda a diminuição de substâncias protetoras dos neurônios, podendo causar inclusive morte de células cerebrais. “Em alguns pacientes, percebemos uma atrofia cerebral e até diminuição do hipocampo – área do nosso cérebro relacionada à memória e às emoções”, explica Pitta. Na prática, isso leva a prejuízos de memória, dificuldade de concentração e de realização de funções cognitivas.

Devido ao quadro depressivo, o hipotálamo – região cerebral que, entre outras funções, coordena a produção de hormônios em diferentes glândulas – estimula a produção de cortisol em excesso. Esse hormônio, conhecido como hormônio do estresse, quando produzido mais do que o necessário, ajuda a liberar fatores inflamatórios e a diminuir a capacidade imunológica do organismo. Por isso, os pacientes depressivos têm maiores chances de adoecer do que aqueles que não sofrem da doença.

Ainda devido à disfunção do cortisol, a depressão pode tornar-se crônica. Nestes casos, quanto mais tempo demora para o paciente receber o tratamento correto, menores são as chances de sucesso. “Há maior risco de comprometimento do cérebro e, consequentemente, de resultados do tratamento”, explica o psiquiatra.

Assim, os sintomas da depressão ocorrem devido a alterações no processamento de informações e disfunções na transmissão de sinais entre neurônios, em diferentes regiões do cérebro.

 

SINTOMAS E CIRCUITOS DA DEPRESSÃO
Sintomas Região Cerebral de Processamento Neurotransmissores envolvidos
Humor deprimido Amígdala

Córtex pré-frontal (Ventromedial e Área subgenual)

Serotonina, noradrenalina e dopamina
Apatia e perda de interesse Córtex pré-frontal

Hipotálamo

Nucleus accumbens

Dopamina e noradrenalina
Alteração do sono Córtex pré-frontal

Hipotálamo

Tálamo

Prosencéfalo basal

Serotonina, noradrenalina e dopamina
Fadiga Córtex pré-frontal

Núcleo estriado

Nucleus accumbens

Dopamina e noradrenalina
Disfunção executiva

(dificuldade de planejamento e realização de atividades rotineiras em sequência)

Córtex pré-frontal Dopamina e noradrenalina
Alterações psicomotoras (agitação e lentidão) Núcleo estriado

Córtex pré-frontal

Cerebelo

Serotonina, noradrenalina e dopamina
Alterações de peso e apetite Hipotálamo Serotonina
Ideação suicida Amígdala

Córtex pré-frontal (Ventrolateral e Orbital frontal)

Serotonina
Ideação de culpa e menos-valia (inferioridade) Amígdala

Córtex pré-frontal (Ventrolateral)

Serotonina

Adaptado (Stahl, 2010)

 

Como tudo começou

“Na década de 1950, ao se pesquisar um tratamento para tuberculose, percebeu-se que o medicamento também fazia efeito em sintomas depressivos”, conta Pitta. “Foi então que se descobriu, acidentalmente, a importância dos níveis de neurotransmissores no quadro da depressão”, complementa.

Depois disso, intensificou-se o estudo de tratamentos focados no aumento da disponibilidade dos neurotransmissores serotonina, noradrenalina e dopamina. Ao longo do tempo, mais detalhes foram descobertos sobre essa química da depressão e os tratamentos procuraram balancear a eficácia no controle da doença, assim como minimizar ao máximo os eventos adversos. Essa evolução se deu desde os antidepressivos tricíclicos até os mais modernos, chamados duais. Um exemplo desta última classe é Pristiq (desvenlafaxina), produzido pela Pfizer, que provoca menos eventos adversos como sonolência diminuída e pouca interferência no peso e na libido.  A seguir, mais informações sobre os tipos de antidepressivos existentes.

 

TRATAMENTO DA DEPRESSÃO – EVOLUÇÃO
Tricíclicos Primeira geração de antidepressivos, muito eficazes, atuam bloqueando o “transporte” dos três principais neurotransmissores relacionados à depressão: serotonina, noradrenalina e dopamina. Como causam muitos efeitos colaterais, a adesão ao tratamento fica prejudicada.
IMAO: inibidores da monoaminaoxidase A monoaminaoxidase é uma enzima responsável por “desativar” a serotonina, a noradrenalina e dopamina. Assim, os medicamentos IMAOs agem diretamente nesta enzima, a fim de aumentar a disponibilidade dos três neurotransmissores que têm papel importante na depressão.
ISRS:

inibidores seletivos de receptação de serotonina

Com mecanismo de ação focado no bloqueio da serotonina, esses medicamentos possuem menos eventos adversos do que os medicamentos anteriores a ele. Conhecida como segunda geração de antidepressivos, a classe é uma das mais utilizadas para a depressão, melhora a adesão do paciente ao tratamento, mas não possui a mesma eficácia dos tricíclicos.
IRSN ou Duais:

inibidores de recaptação de serotonina e noradrenalina

Conhecida como terceira geração de antidepressivos, esses medicamentos atuam sobre os neurotransmissores serotonina e noradrenalina e aliam eficácia no controle da doença com menor interação medicamentosa e menos efeitos colaterais.

Vale ressaltar que somente um médico é capaz de fazer o diagnóstico correto da doença e optar pelo tipo de tratamento mais adequado para cada paciente. Para isso, o profissional leva em conta o tipo e o grau da depressão, o perfil do paciente (se ele possui outras enfermidades, inclusive crônicas, por exemplo) e o grau de acometimento do cérebro. “Quando a depressão é antiga e o paciente não foi tratado durante muito tempo, geralmente é necessário lançar mão de diferentes terapias ao mesmo tempo”, diz Pitta. “Precisamos dessa associação, pois nestes casos, é mais difícil de o paciente responder ao tratamento”, explica.

Antes de procurar um médico, vale se preparar para a consulta. Por isso, uma boa dica é para o paciente é listar tudo o que deve ser conversado, especialmente em relação aos sintomas. No caso da depressão, por exemplo, é importante prestar atenção a diferentes aspectos que podem ajudar o médico na conclusão de um possível diagnóstico.

 

PRINCIPAIS SINTOMAS DA DEPRESSÃO
  • Desinteresse por atividades antes prazerosas e/ou cotidianas

  • Tristeza prolongada

  • Sentimento de isolamento

  • Irritabilidade

  • Autoestima baixa

  • Dificuldade de concentração

  • Falta de motivação

  • Dificuldades no trabalho

  • Problemas no relacionamento com familiares e amigos

  • Distúrbios de sono

  • Alteração no peso

  • Perda de libido

Fonte: Folha.com; Pfizer

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