Relaxamento é a chave para um parto tranquilo e com menos dor

Relaxamento para o parto com menos dor

Carla Prates

Especialistas recomendam que a gestante lance mão de qualquer técnica que a ajude a relaxar, como ioga, meditação ou movimentos corporais.

Conhecida como a dor mais insuportável do mundo, a sensação dolorosa do parto pode ser minimizada se a gestante conseguir manter a mente tranquila. Na opinião de especialistas, a palavra-chave para diminuir a sensação de dor na hora de dar à luz é o relaxamento.

De acordo com o médico Alessio Calil Mathias, especialista em ginecologia, obstetrícia e reprodução humana do Hospital São Luiz, em São Paulo, a percepção da dor, de modo geral, é relativa, depende de cada pessoa. “Uma mesma queimadura pode não doer tanto para alguns como para outros. E isso está relacionado com a produção de endorfina, o hormônio do bem-estar e do prazer. Se o organismo produz mais endorfina a sensação de dor é menor. Pessoas mais tensas, estressadas, nervosas e ansiosas tendem a liberar menos endorfina e, consequentemente, terão mais dor na hora do parto”, relata o médico.

O medo contribui para o processo da dor. No livro “Correntes da Vida”, o psicoterapeuta inglês David Boadella explica o que acontece: “(…) o útero tenta fazer duas coisas antagônicas ao mesmo tempo: tenta abrir-se, sob a influência do relógio biológico que atua através do hormônio que prepara o caminho para o bebê nascer; e, simultaneamente, tenta manter-se fechado, sob a influência dos nervos simpáticos, trazidos à ação pelo medo. É como se alguém quisesse dobrar e esticar o braço ao mesmo tempo; o braço teria um espasmo, que causaria dor”.

É o conhecido ciclo vicioso da fisiologia da dor: medo-tensão-dor. Quando temos medo ficamos tensos e a tensão causa mais dor.

Para relaxar, vale de tudo, conforme a opinião de Mathias. Desde técnicas alternativas, como acupuntura, pilates, ioga, homeopatia, florais sem álcool ou até dançar, cantar e gritar. “Tudo que puder aliviar o ciclo medo-tensão-dor é útil; claro sempre com orientação de um médico e sem prejuízos para a criança”, ele pondera.

Cada pessoa tem seu jeito de relaxar e isso deve ser incentivado desde o início do parto. O mais importante é a gestante se dedicar ao que ela gosta de fazer, não importando o que seja. A saúde em ordem, física, psíquica e emocional, é mais um fator importante para o relaxamento. Por isso o obstetra costuma recomendar o início do pré-natal três meses antes de a paciente engravidar.

Conforto

Se manter a tranquilidade é o melhor antídoto contra as dores no parto, nada melhor que o ambiente doméstico e o acolhimento de pessoas queridas nesta hora. Fernanda Lopes Martins Pereira teve seu primeiro e único filho com apenas 15 anos de idade. Ela conta que não sentiu muita dor durante o trabalho de parto. Em grande parte, ela atribui isso a ter ficado em casa o maior tempo possível. “A maioria das pessoas já sente dor e vai logo para o médico. Passar esse processo em casa, no conforto do lar, me ajudou muito”, acrescenta Fernanda.

Entre as recomendações do obstetra Mathias está a de que a gestante só deve ir ao hospital com contrações em intervalos de cinco em cinco ou dez minutos a cada hora, daí a garantia é maior de que ela terá a dilatação necessária e o parto será mais tranquilo. “Assim que entra em trabalho de parto, costumo aconselhar à futura mamãe a passear no shopping, fazer algo para se distrair e que dê prazer, atuando na liberação de endorfina. O ambiente hospitalar é muito estressante, tem gente entrando para fazer o toque, outras pacientes gritando…”, pondera.

Renata Dias Gomes tem dois filhos; o segundo parto foi o menos dolorido e aconteceu no aconchego do lar, na banheira. Ela conta que “estar em casa foi uma delícia e tornou o momento mais prazeroso”. Ao lado dela, estavam o obstetra, o marido e uma doula informal, que ajudou com massagens, apoio físico e emocional. Mas vale lembrar que nem todos os médicos são favoráveis ao parto domiciliar.

Informação é fundamental

Na opinião da obstetriz Ana Cristina Duarte, uma das coordenadoras do Gama (Grupo de Apoio à Maternidade Ativa), metade das garantias para se precaver contra um parto muito dolorido está na busca de informações.

Uma gestante bem informada fica longe de intervenções e práticas perigosas, como a aplicação de ocitocina (que estimula as contrações do útero e a expulsão do bebê). Também evita ficar parada na hora do parto e o rompimento artificial da bolsa. Esses procedimentos podem trazer ainda  mais dor e aumentam o risco de cesárea e fórceps. Tomar anestesia cedo demais é outro fator prejudicial.

A obstetriz pondera a necessidade de se procurar profissionais que tenham uma filosofia de atendimento que privilegie o parto normal e as ações que mudem a perspectiva da dor, para que a gestante passe a encará-la de forma positiva. Esses também são fatores que aumentam a confiança e afastam o medo e a insegurança na hora de dar à luz, de acordo com Ana Cristina.


Exercícios físicos na gravidez podem colaborar para a diminuição da dor no parto

Não há estudos científicos de grande escala que assegurem que técnicas alternativas ou exercícios físicos atuem diretamente na diminuição da dor durante o trabalho de parto ou no pedido de analgesia. Entretanto, especialistas garantem que indiretamente há benefícios. Eliana Viana Monteiro Zucchi, coordenadora do setor de ginecologia do esporte da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), explica que o exercício físico tem uma influência positiva nas inúmeras variáveis para um parto menos doloroso e saudável.

A atividade física atua, por exemplo, no fortalecimento e no relaxamento dos músculos do assoalho pélvico e na liberação de endorfina, além de trazer mais relaxamento ao corpo e à mente. O assoalho pélvico é a musculatura que fica em torno da uretra e do ânus e que oferece sustentação às vísceras pélvicas para a passagem do feto. É muito importante a gestante saber reconhecer essa estrutura muscular e usá-la de forma benéfica.

O treinamento físico também melhora o condicionamento e a capacidade respiratória, além de atuar na prevenção de doenças que podem complicar a gestação, como diabetes e hipertensão.

Ioga para gestantes

A ioga é outra prática apontada como muito positiva por algumas gestantes. Há lugares e profissionais especializados em ioga orientada para grávidas. Cristina Bolzano Guimarães é uma dessas especialistas: ministra aulas de ioga para gestantes, além de ser doula. De acordo com ela, há exercícios para melhorar a respiração, a concentração, a coordenação, o equilíbrio físico e emocional e o controle da dor.

Além disso, algumas posturas ajudam o bebê a encaixar, a descer e a mãe a coordenar o trabalho de parto, ou seja, a contrair apenas o útero, enquanto relaxa o restante do corpo e deixa a respiração fluir. “Só é preciso praticar antes para, na hora, saber como se faz, garante a instrutora de ioga”.

Tanto os exercícios físicos como a prática de ioga devem ser feitos mediante orientação médica e são contraindicados se houver complicações no parto.


Especialistas dão dicas para aliviar a dor no trabalho de parto

Atividades artísticas, alongamento, vocalização, movimentos corporais, meditação e massagem podem ser úteis para as mulheres que entram em trabalho de parto conseguirem relaxar. Até gritar ou ouvir música podem ser estimulados, de acordo com o ginecologista e obstetra Alessio Calil Mathias, do Hospital São Luiz, para facilitar a abertura do colo do útero e aliviar as dores.

– Na hora H, a coisa que mais faz diferença para a maioria das mulheres é a água quente, seja no chuveiro ou na banheira, revela a obstetriz Ana Cristina Duarte. Só é preciso ficar atento a dois detalhes: a água quente pode abaixar a pressão e o ideal é que a imersão em banheira seja feita quando a dilatação já atingiu 5 ou 6 centímetros, para que não haja desaceleração do trabalho de parto;

– Não poupe esforços para relaxar e diminuir a tensão. Para isso, lance mão de qualquer recurso: técnicas de respiração, meditação, massagem, posições de ioga, oração etc;

– Evite ficar parada, a movimentação é importante durante o trabalho de parto;

– Para quem pode contar com este recurso, ter uma doula ao lado é essencial, pois previne situações de estresse e tensão. A doula tem um arsenal do que usar na hora do parto para minimizar a dor;

– A bola suíça é um apoio confortável para a gestante se sentar, pois os ossos costumam ficar sensíveis e soltos durante o parto.

– A visualização também pode ajudar. A doula Cristina Bolzano Magalhães dá a sugestão: “Pense sempre que seu bebê está mais próximo de chegar a cada contração. Imagine o colo do útero se abrindo, tenha o mantra – abre, abre – em mente. Viva cada contração de uma vez como uma onda, que vem, abre teu corpo e vai embora”.


Mulheres esquecem da dor do parto após o nascimento do filho

A dor do parto é uma construção histórico-cultural-social. Está inclusive no livro mais lido do mundo, a bíblia (Gênesis 3:16); ao expulsar Adão e Eva do Paraíso por terem provado do fruto proibido, o Criador lhes diz: “Multiplicarei sobremodo os sofrimentos da tua gravidez; em meio de dores darás à luz filhos”. E não é isso que geralmente passa de geração para geração, que a dor do parto é a pior do mundo? Mudar essa perspectiva, ou seja, encarar o parto como algo natural, fisiológico e saudável e a dor como parte disso também pode ajudar.

Entretanto, é uma característica da nossa sociedade atual evitar qualquer tipo de dor. Com o advento da anestesia, as pessoas têm a opção de escolher se querem ou não passar por isso. Mas a dor pode sim ser encarada sob um ponto de vista positivo.

Para a obstetriz Ana Cristina Duarte, o parto não pode ser resumido apenas à dor. É um processo de transformação intenso e a dor é a menor de suas facetas. “A maioria das mulheres acha essa dor bastante tolerável, algumas até esperam uma dor do outro mundo e, quando se dão conta, já estão tendo o bebê”, conclui a médica.

Foi o que aconteceu com Fernanda Lopes Martins Pereira, que sentiu um incômodo o dia todo e, somente após chamar uma massagista, amiga da família, identificou as contrações. Chegou ao hospital com sete dedos de dilatação e teve sua filha menos de duas horas depois. De acordo com o seu relato, a experiência fez com que ela desmistificasse a dor do parto e hoje ela costuma dizer para as amigas que dar à luz não é um bicho de sete cabeças.

Outra questão importante é que, por um caráter evolutivo, a maioria das mulheres relega a experiência dolorosa ao esquecimento. Em grande parte, a dor é superada e esquecida diante do enorme prazer com a chegada do filho.

O obstetra Alessio Calil Mathias, do Hospital São Luiz, conta que há casos em que a gestante está urrando de dor e, assim que recebe o filho no colo, para de pensar no sofrimento. “Já fiz suturas com a mãe totalmente tranquila, sem dor alguma, pois claramente a presença do filho faz com que aumente a produção de endorfina. Algumas até dizem: ‘nossa, como o parto foi rápido. A sensação é de que durou apenas 5 minutos, enquanto na realidade foram 2, 3 horas de parto’”, relata o médico.

Fonte: http://noticias.uol.com.br/ciencia/ultimas-noticias/redacao/2010/10/21/relaxamento-e-a-chave-para-um-parto-tranquilo-e-com-menos-dor.htm