Uma visão panorâmica da terapia comportamental de orientação behaviorista radical

psicoterapia comportamental em curitibaAutora: Ana Maria Le Sénéchal Machado

“Os homens agem sobre o mundo, modificam-no e, por sua vez são modificados pelas conseqüências de sua ação. Alguns processos que o organismo humano compartilha com outras espécies alteram o comportamento para que ele obtenha um intercâmbio mais útil e mais seguro em determinado meio ambiente. Uma vez estabelecido um comportamento apropriado, suas conseqüências agem através de processos semelhantes para permanecerem ativas. Se, por acaso, o meio se modifica, formas antigas de comportamento desaparecem, enquanto novas conseqüências produzem novas formas.” (Skinner, 1978, p.15).

TERAPIA E MODIFICAÇÃO DO COMPORTAMENTO

A Terapia Comportamental (TC) foi, durante muito tempo, encarada como a simples aplicação sistemática de técnicas de modificação de comportamentos problemáticos, com os quais outras abordagens não tinham como ou, até mesmo, não pretendiam trabalhar. A tecnologia e/ou procedimentos padronizados de modificação de comportamento são utilizados sim, mas somente quando implicam a elaboração de uma estratégia de ação para enfrentar um déficit específico de determinado repertório comportamental de uma pessoa. O terapeuta, quando é o caso, propõe ao cliente que explore e experimente outros meios de comportar-se: expõe o cliente, portanto, à técnica que selecionou como a mais apropriada, segundo suas hipóteses de solução para o problema emergente do cliente (Kanfer e Phillips, 1974; Álvarez, 1996).

IMPLICAÇÕES GERAIS DA TERAPIA COMPORTAMENTAL

TC implica, basicamente, a análise funcional do(s) comportamento(s) problema em questão (queixa do cliente), uma vez que ela se dirige para metas de aprendizagem de outras maneiras de agir. Nesse sentido, o objetivo geral da TC é criar novas condições para essa aprendizagem; e faz isso, através da análise das contingências nas quais a queixa ou o problema está sendo mantido. Assim, uma análise funcional das contingências em operação que produzem um comportamento desadaptativo ou mal aprendido é realizada visando a aquisição de novos repertórios comportamentais, em substituição aos deficitários ou mal aprendidos, de modo a fortalecer e manter o comportamento desejado, que ‘funciona’, permitindo, desse modo, que os indesejáveis, mal aprendidos ou desadaptativos sejam enfraquecidos. E o terapeuta comportamental é, nesse processo todo, a pessoa que vai atuar, voluntariamente, no sentido de produzir alterações no comportamento do cliente: o comportamento do terapeuta é diretivo, ‘centrado’ no cliente. Portanto, é preciso ficar bem claro que a TC propõe, em primeiro lugar, uma análise apurada, profunda e sofisticada de contingências, para depois propor a aplicação de tecnologia, se for o caso. Isso porque, se a tecnologia for introduzida a partir de uma análise superficial das contingências em operação, o comportamento problema, ou sintoma, reaparece, pois uma técnica poderosa e bem aplicada pode produzir alterações em algum elemento da contingência (por ex. no organismo) e não na contingência total (Guilhardi, 1992, 1995).

O QUE É CONTINGÊNCIA

Nesse ponto, cabem alguns esclarecimentos sobre o termo ‘contingência’. Contingência implica relação entre organismo e ambiente, ou entre resposta e consequência; implica, portanto, relações de dependência entre eventos. Contingência pode significar, também, qualquer relação de dependência entre eventos ambientais ou entre eventos comportamentais e ambientais. Para Catania (1993) o termo contingência, em análise do comportamento, é utilizado para enfatizar como a probabilidade de ocorrência de um evento pode ser afetada ou produzida por outros eventos. O conceito de contingência tríplice é um instrumento conceitual que demonstra-se muito importante na análise das interações organismo-ambiente, e de especial utilidade para a análise do comportamento humano. De acordo com Todorov (1985) “…uma contingência tríplice especifica (1) uma situação presente ou antecedente que pode ser descrita em termos de estímulos chamados discriminativos pela função controladora que exercem sobre o comportamento; (2) algum comportamento do indivíduo que, se emitido na presença de tais estímulos discriminativos, tem como consequência (3) alguma alteração no ambiente, que não ocorreria (a) se tal comportamento fosse emitido na ausência dos referidos estímulos discriminativos ou (b) se o comportamento não ocorresse.” (p.75). Assim, a partir da identificação dos três termos inter-relacionados [estímulo discriminativo (SD), resposta e consequência] é que se poderá fazer algumas previsões a respeito da interação em análise. Na situação de terapia, a identificação das contingências em operação na vida do cliente não é tarefa fácil. E o trabalho do terapeuta consistirá em fazer inferências sobre os tais estímulos antecedentes e suas possíveis funções (discriminativa, eliciadora ou reforçadora) a partir dos comportamentos verbais e não verbais do cliente emitidos durante a sessão. Fica implícito, portanto, que a identificação desses estímulos e de suas respectivas funções vai depender tanto da memória do cliente quanto do comportamento do terapeuta que, na relação terapêutica funciona, em grande parte, como um agente facilitador (sobre isso tratar-se-á, especificamente, mais adiante).

SOBRE A REGULARIDADE DO COMPORTAMENTO E SOBRE A PERSONALIDADE

De um ponto de vista prático, pode-se dizer que uma pessoa compreende o conjunto dos comportamentos aprendidos no decorrer de sua vida. Tudo pelo que passou, ou existiu, em sua vida, constitui repertório(s) funcionalmente relacionado(s) às contingências vividas. Sobre isso, Skinner (1982) afirma que “O ambiente deu sua primeira contribuição durante a evolução das espécies, mas ele exerce um diferente tipo de efeito, durante a vida do indivíduo, e a contribuição dos efeitos é o comportamento que observamos em dado momento. Qualquer informação disponível acerca de qualquer uma das duas contribuições auxilia a previsão e o controle do comportamento humano e sua interpretação na vida diária. Na medida em que um dos dois possa ser alterado, o comportamento pode ser modificado.” (p.19). Nesse sentido pode-se dizer que o comportamento é controlado pelas contingências, ou ainda, pelo efeito do reforçamento. Esse efeito pode ser generalizado, e é isso que pode ser levado para a clínica, pois todo comportamento está sujeito à regularidade de suas probabilidades de ocorrência. Essas probabilidades estão sustentadas no componente de ordem e historicidade que todo fenômeno que ocorre na natureza possui. Com base nessas colocações, a personalidade de uma pessoa pode ser admitida como o conjunto de comportamentos, de repertórios que, ligados a certas circunstâncias, ou contingências (de evolução, de sobrevivência e culturais), são emitidos de modo único por essa pessoa. Cada indivíduo é um ser único, com uma personalidade única. E é através da análise dessas contingências que a TC permite entender que personalidade não é uma coisa fechada, uma ‘estrutura’. Uma pessoa tem certa personalidade porque reconhece uma determinada regularidade em suas interações com o seu mundo público e privado. Essa regularidade está no ambiente, e, assim, um ‘traço’ de personalidade de um indivíduo é tudo aquilo que marca a funcionalidade organismo-ambiente, tudo o que, em determinadas circunstâncias, tem grande probabilidade de ‘funcionar com regularidade’, permitindo a explicação, a previsão e o controle de suas atitudes (Bernardes, 1993; Lé Sénéchal Machado, 1993). “Um vago senso de ordem emerge de qualquer observação demorada do comportamento humano. Qualquer suposição plausível sobre o que dirá um amigo em dada circunstância é uma previsão baseada nesta uniformidade. Se não se pudesse descobrir uma ordem razoável, raramente poder-se-ia conseguir eficácia no trato com os assuntos humanos.” (Skinner, 1967, p.28).

O MODO ANALÍTICO DE CONTINGÊNCIAS NA TERAPIA COMPORTAMENTAL

Num primeiro momento, a análise de contingências em TC é teórica e, como tal, deve ser encarada como uma suposição ou hipótese. Somente através da observação sistemática ou da alteração de algum elemento da contingência (eventos comportamentais ou ambientais), como já dito anteriormente, é que o terapeuta poderá ir obtendo as evidências de quais as relações que, efetivamente, estão em operação na vida do cliente, ou mais especificamente, as que estão operando na manutenção do ‘comportamento problema ou queixa’. Através dessa análise funcional (vale relembrar, das contingências em operação), objetivos precisos são formulados, continuamente avaliados e adaptados, de modo a se adequarem às necessidades únicas de cada cliente, ou seja, o foco da atuação terapêutica, reafirmando, está sempre nas contingências determinantes daquele(s) comportamento(s) do cliente. Por isso é importante envolver o cliente na seleção dos objetivos a serem trabalhados na terapia. Esse trabalho conjunto de seleção funciona como facilitador do processo terapêutico, uma vez que está sustentado em acordo mútuo de objetivos. Nesse sentido, a tarefa principal do terapeuta é prestar atenção, de modo ativo e empático, às preocupações do cliente, para que, retornando a este o que ‘compreendeu’ dessas preocupações, possa verificar se sua percepção dos pensamentos e sentimentos, descritos pelo cliente, está correta. A partir dessa interatividade, o terapeuta vai selecionando modos de prestar ajuda ao cliente no sentido de auxiliá-lo a descrever como desejaria agir, em lugar de sua forma atual de conduta. Ao focalizar, eventualmente, comportamentos específicos da vida presente do cliente, o terapeuta auxilia-o a traduzir o que lhe está confuso, em termos de objetivos concretos, possivelmente alcançáveis. O terapeuta comportamental é, sobretudo, um agente reforçador, um orientador. É ele que vai facilitar o desenvolvimento de comportamentos socialmente apropriados, por meio do reforçamento sistemático deste tipo de conduta do cliente. Na TC, o cliente é estimulado a ‘experimentar’ novos modos de atuar, com o propósito de ampliar seu repertório de comportamentos adaptativos. Ou seja, o cliente é estimulado a aprender novas contingências para o controle do seu bem estar pessoal e social (Rimm e Masters, 1983; Meyer e Turkat, 1988; Guilhardi, 1988, 1992; Godoy, 1996).

A IDENTIDADE DA TERAPIA COMPORTAMENTAL

Ao se refletir sobre os principais aspectos que permitem uma compreensão precisa e adequada da TC constata-se que ela, basicamente, implica:

1. a identificação das contingências reais, responsáveis pelo “comportamento problemático” do cliente;
2. uma lenta e minuciosa análise de contingências (passadas e atuais), a partir da qual, só então, decorre um procedimento (por exemplo, o manejo intencional das contingências reais e atuais, pois não há como alterar as contingências passadas);
3. a análise do ‘ato em contexto’ (contingências de reforçamento, de sobrevivência, de evolução cultural);
4. o envolvimento natural do cliente com o processo, o que, de certa maneira, já o prepara para conviver com a mudança produzida. No final do processo ele é uma nova pessoa, e não a mesma pessoa com novas respostas. Esta distinção tem grande importância na manutenção das mudanças adquiridas e nos sentimentos e emoções envolvidos;
5. um processo de ‘descoberta da realidade’. Toda teoria é um modelo que se aproxima mais ou menos da realidade – é um guia que direciona a ação do terapeuta, mas não determina, em detalhes, essa ação e, na prática, a teoria não pode ser mais do que isso. Cabe ao terapeuta, portanto, em interação com o cliente, ir além da teoria para produzir a descoberta do que é ‘real’ para o cliente (Guilhardi, 1992).

Consideremos, de modo particular, cada um dos aspectos mencionados.

1 e 2) O ‘setting’ terapêutico é uma situação (também uma contingência) na qual se promove o estabelecimento de estímulos discriminativos (sinais positivos) com o intuito de recuperar contingências passadas (história de vida do cliente) e relacioná-las com as atuais (o problema do cliente no presente) propiciando, através do remanejamento dos elementos envolvidos, a instalação de novos comportamentos públicos, de novos pensamentos e de novos sentimentos permitindo, assim, o desenvolvimento pessoal do cliente, ou melhor, do seu autoconhecimento. Para Skinner (1982) “O autoconhecimento é de origem social. Só quando o mundo privado de uma pessoa se torna importante para as demais é que ele se torna importante para ela própria…” pois “então ingressa no controle de comportamento chamado conhecimento. Mas autoconhecimento tem um valor especial para o próprio indivíduo. Uma pessoa que se ‘tornou consciente de si mesma’, por meio de perguntas que lhe foram feitas, está em melhor posição de prever e controlar seu próprio comportamento.” (p.31). Portanto, autoconhecimento envolve a emissão de comportamento privado auto discriminativo em relação a eventos privados que ocorrem num ‘mundo dentro da pele’ e a comportamentos públicos, do próprio indivíduo, e suas variáveis controladoras. Esse comportamento auto discriminativo permite a elaboração de regras de autocontrole e só se instala a partir de contingências providas pela comunidade verbal (Bernardes, 1993; Tourinho, 1995). Comportamento auto discriminativo envolve a identificação de “pistas (1) para o comportamento passado e as condições que o afetaram, (2) para o comportamento atual e as condições que o afetam e (3) para as condições relacionadas com o comportamento futuro.” (Skinner, 1982, p.31), e regra envolve a descrição verbal de contingências. Mas, como bem observa Banaco (1993), “nem sempre as regras descrevem contingências naturais…” (p. 75). E isso pode causar problemas ao processo terapêutico, pois, se uma pessoa foi muito reforçada por seguir regras, este é um comportamento difícil de ser modificado (mas não impossível). E será através do autoconhecimento que o cliente poderá selecionar quais regras deverá continuar seguindo e quais as que devem ser abandonadas, por não descreverem contingências reais: uma regra pode afastar uma pessoa das consequências naturais do seu comportamento (Banaco, 1993; Micheletto e Sério, 1993). É por conta dessas considerações, que o foco da TC não está, necessariamente, só no comportamento expresso mas, também, no comportamento encoberto. Por isso, o que o terapeuta pretende, ao investigar as contingências passadas, é identificar os encadeamentos comportamentais do cliente e analisar seus elos. Sendo o comportamento expresso só um dos elos de uma cadeia comportamental, torna-se essencial o processo analítico das contingências envolvidas na história de vida passada e presente do cliente. As contingências interagem com um indivíduo, independente de ele ter, ou não, consciência da existência delas. Quando um cliente relata, por ex., “Não tenho tido ânimo prá fazer nada!”, o papel do terapeuta não é ‘criar’ uma contingência, artificial, para ‘animar’ o cliente. O que o terapeuta precisa fazer é verificar a quais contingências o cliente está respondendo, para que ele próprio, cliente, crie novas contingências que lhe permitam produzir outros comportamentos e, assim, alterar o controle do ambiente sobre seu repertório comportamental. O que faz uma contingência ‘funcionar’, e produzir mudança efetiva, é a experiência ‘concreta e natural’ que o cliente vai ter com essa contingência, e não com uma artificial, dissociada de suas ‘reais’ condições de vida atual (Skinner, 1980; Guilhardi, 1988, 1995). Reconhece-se, é claro, as dificuldades de implementação desse processo de remanejamento de contingências. Em geral, os repertórios adquiridos pelo cliente foram instalados através da experienciação cotidiana e do processo de desenvolvimento na infância. Esses fatores dão uma força particularmente grande às contingências aprendidas pelo cliente. Torna-se necessário, como já afirmado, o ‘teste de realidade’, pois não basta o terapeuta, no caso, dizer ao cliente “Vamos lá, anime-se!”. O cliente deverá experienciar as novas contingências, já que, está claro, é o comportamento emitido por uma pessoa que vai produzir o que passará a fazer parte de seus determinantes (Skinner, 1980; Rimm e Masters, 1983). E a importância dessa experienciação está no termo ‘produzir’. Para Micheletto e Sério (1993), “ele indica que o comportamento é indispensável porque ele é que produzirá aquilo que passará a fazer parte de seus determinantes. Dito de outra maneira, a consequência depende do comportamento e o determina.” (p.13).

3) Em análise comportamental, qualquer evento deve ser entendido, e até mesmo definido, através de uma análise contextual. Isso quer dizer que nenhum comportamento faz sentido – e nenhuma de suas unidades de análise pode ser compreendida – se não for ‘entendido’ ou ‘descrito’ o contexto no qual esse comportamento acontece. Contexto é somente uma palavra para designar as contingências de reforçamento, de sobrevivência e de evolução cultural, as quais uma pessoa tem criado e estado submetida durante toda a sua vida. Assim, pode-se afirmar que é só a partir da análise do contexto de ocorrência de um comportamento, que se pode dizer algo sobre como as relações comportamentais se estabelecem, ou como os comportamentos públicos, os pensamentos, as fantasias, os sonhos e os sentimentos de uma pessoa podem ter sido produzidos (Rimm e Masters, 1983; Hayes, 1987; Meyer e Turkat, 1988; Kazdin, 1996).

4) O estabelecimento de uma boa relação pessoal é um aspecto essencial ao processo terapêutico. Fatores tais como a cordialidade, a autenticidade e, principalmente, a aceitação, devem estar presentes durante todo o processo de atendimento ao cliente. Esses fatores caracterizam condições primordiais, mas não suficientes, ao atendimento. Assim, para que qualquer interação terapêutica se torne possível e eficiente, é muito importante que o terapeuta promova o estabelecimento de um ‘clima’ de confiança. E esse ‘clima’ pode ser instituído se o terapeuta mostrar que ‘compreende e aceita’ o cliente, que os dois estão ‘trabalhando juntos’ e que ele, terapeuta, dispõe de meios para prestar ajuda no sentido desejado pelo cliente (Rangé e Erthal, 1988; Guilhardi, 1992; Delitti, 1993). ‘Aceitar’ o cliente, no caso, deve ser entendido à luz da metáfora de Albert Ellis (Marinho, 1995) de que os psicoterapeutas “perdoam o pecador, mas não o pecado.” (p.06). Dito de outra forma, o fato de o terapeuta ‘aceitar o cliente’ não implica, necessariamente, ‘aceitar’, também, ‘os comportamentos do cliente’: é indispensável que o terapeuta saiba distinguir a pessoa dos comportamentos dela.

5) O terapeuta comportamental tem como referencial teórico a filosofia do Behaviorismo Radical, que direciona sua prática. Mas na interação com o cliente, é prudente que o terapeuta fique mais sob controle do ‘discurso’ do cliente e menos sob o de seu modelo conceitual. O terapeuta que responde somente à teoria procura ‘enquadrar’, tanto o cliente quanto o seu próprio discurso, nos parâmetros previstos por esta. Agindo dessa forma, o terapeuta corre o risco de perder o contato com a ‘realidade do cliente’ pelo fato de supor, com base na teoria, por exemplo, que determinados ‘mecanismos’ podem estar ‘dominando’ o cliente. A função de uma teoria é a de auxiliar o terapeuta – e, consequentemente, o cliente – em suas análises, e não, substituí-las. Portanto, é preciso que fique bem claro que é a teoria que deve ser ‘enquadrada’, adaptada ao cliente, e não o contrário (Guilhardi, 1992).

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA E FILOSÓFICA DA TERAPIA COMPORTAMENTAL

Como muitos autores observaram (Kanfer e Phillips, 1974; Rimm e Masters, 1983; Guilhardi, 1992; Delitti, 1993; Kazdin, 1996) pode-se afirmar que a TC, fundamentada na teoria da aprendizagem, constitui-se uma abordagem ao aconselhamento e à psicoterapia que tem, como principal tarefa, engajar-se na solução dos problemas do cliente, dando-lhe pistas para localizar suas dificuldades, de modo a ‘auxiliar o cliente a crescer’. Seu crescimento é importante porque, proporcionando a redução do seu sofrimento, produz alívio e melhores condições para o cliente desenvolver o autoconhecimento. A TC tem compromisso teórico com o Behaviorismo Radical (BR) e, conceitual, com a ‘disciplina metodológica’ da Análise Experimental do Comportamento (AEC). Mas seu principal compromisso é mesmo com o cliente. É preciso admitir que o que têm funcionado, de modo mais efetivo, como suporte teórico e metodológico para a Terapia Comportamental (TC), é a filosofia do Behaviorismo Radical e as condições de controle e predição do comportamento demonstrados pela AEC. O instrumento que viabiliza a TC é a Análise Conceitual do Comportamento (ACC), que permite a identificação das variáveis relevantes, responsáveis pela instalação, supressão, modificação e manutenção dos fenômenos comportamentais. A ACC baseia-se em conceitos teóricos que envolvem, basicamente, a aplicação de princípios derivados da pesquisa em Psicologia Experimental e Social, ou seja, da pesquisa em Análise Experimental do Comportamento. A esse respeito, Torós (1996) afirma que “A Análise do Comportamento não propõe um tratamento sintomatológico ou mecanicista, uma vez que esta abordagem baseia-se no modelo bio-sócio-psicológico, que elimina o conceito tradicional de ‘doença subjacente’ e mesmo o conceito de sintomas através do qual esta ‘doença’ se manifestaria. Ela propõe, isto sim, um tratamento das queixas apresentadas (solidão, stress, depressão, insegurança, etc) e dos mecanismos psicológicos funcionalmente envolvidos com o desenvolvimento e manutenção das problemáticas apresentadas.” (p.01). “Para a Análise Comportamental, desenvolver a percepção de si mesmo, é a chave do problema. Trata-se de mudar o processo…de modo que o indivíduo exerça todo seu potencial de reflexão e questionamento sobre suas atitudes… Só o indivíduo pode ser o juiz final para determinar o que é certo ou errado para ele, de modo que descubra do que é capaz, gostando de si mesmo.” (p.03).

POR QUE TERAPIA COMPORTAMENTAL?

A pessoa que aprende a descrever as contingências das quais o seu comportamento é função – que aprende o autoconhecimento – fica em uma posição privilegiada para prever e controlar suas atitudes (Skinner, 1991). Quanto a isso, Micheletto e Sério (1993) acrescentam que, assim, essa pessoa vai se tornando produto e produtor consciente de sua própria história. “Na concepção behaviorista, o homem pode agora controlar seu próprio destino, porque sabe o que deve ser feito e como fazê-lo.” (Skinner, 1982, p.212). A Terapia Comportamental pode ser considerada como “…uma prática que se baseia em uma perspectiva naturalista em psicologia e em um modelo sociopsicológico do comportamento.” (Rangé, 1988, p.20). Por focalizar mais a alteração ambiental e a interação social do que a alteração direta dos processos comportamentais por meio de procedimentos biológicos, tanto o comportamento dito ‘normal’ quanto o dito ‘anormal’ são vistos como resultado de processos de aprendizagem. A atribuição de rótulos ou traços de personalidade ou o exame de supostas patologias subjacentes, não são necessárias à intervenção psicoterápica, por essa enfatizar mais os determinantes atuais do comportamento, que os históricos, valorizando a solução de problemas. Para tanto, o modo analítico comportamental se efetiva a partir de formulações baseadas em dados empíricos e em predições comprovadas. O que equivale dizer que, as ‘intuições’ ou ‘impressões clínicas’, inventadas e/ou não demonstradas, só têm valor em TC quando são utilizadas para gerar uma estratégia comportamental de investigação, tal como a aplicação de tecnologia específica ou a formulação de hipóteses para a explicação do comportamento problemático em questão (Rangé 1988; Guilhardi, 1992). A TC reflete, portanto, um enfoque de tratamento da disfunção clínica e do comportamento desadaptativo, que se desenvolveu, em grande parte, a partir das investigações em Psicologia da Aprendizagem e que tem, como referencial teórico, a orientação filosófica do Behaviorismo Radical. Parafraseando Todorov (1989, p.348), este trabalho é uma tentativa de caracterizar a Terapia Comportamental de orientação behaviorista radical e de mostrar como o que se faz nessa área de trabalho clínico é compatível com essa caracterização.

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OBSERVAÇÕES

1. A autora agradece a leitura cuidadosa deste texto e as sugestões pertinentes feitas pela Profa. Sandra Maria de Castro Bernardes, do Instituto de Psicologia da PUC/MG, Belo Horizonte.
2. As referências a Guilhardi, 1992, dizem respeito a textos não publicados, elaborados pelo Prof. Hélio José Guilhardi, da PUC/Campinas, relativos a 26 encontros de estudo e supervisão em Terapia Comportamental realizados no Instituto de Análise do Comportamento de Campinas, em Campinas/SP, durante o ano de 1992. A autora agradece o acesso permitido a esses textos.

Ana Maria é Mestre em Psicologia Social. Docente do Departamento de Psicologia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG, Belo Horizonte, MG. Psicóloga Clínica. Terapeuta Comportamental do CONTEXTO: Núcleo de Interação em Análise do Comportamento/BH.

Disponível em: https://docs.google.com/document/d/1KKNJ3ZZAb1_pnYQ4gl6dtnCbtnTEwNtv7vhQQXgeBKM/preview?pli=1

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